Perguntas e respostas sobre liturgia – 1
Gestos e Símbolos na Liturgia É verdade que a liturgia cristã está recheada de gestos e de símbolos, que nem sempre são apreciados e, muitas vezes, são mesmo desprezados e banalizados, correndo-se o risco de fazermos uma celebração fortemente verbalizada, onde quase só aparecem palavras, discurso. Daí, as nossas celebrações se tornarem tão frias, na maior parte dos casos.
É certo que o Concílio Vaticano II, de que estamos a celebrar o cinquentenário do seu início, revalorizou fortemente a Palavra de Deus, que veio a adquirir um maior relevo. Contudo, embora não o tenha pretendido, houve o empobrecimento do simbólico, da linguagem do movimento e dos sinais.
Porquê os gestos
e símbolos na celebração?
A liturgia é por si mesma uma celebração em que prevalece a linguagem dos símbolos. Uma linguagem mais intuitiva e afectiva, mais poética e gratuita. Não é só conceito, nem tem como objectivo dar só a conhecer. A liturgia é uma acção, um conjunto de sinais “performativos, isto é, sinais que nos introduzem em comunhão com o mistério e que nos fazem experimentá-lo, mais do que entendê-lo. É uma celebração e não uma doutrina ou uma catequese. Daí que, a linguagem simbólica é a que nos permite entrar em contacto com o inacessível: o mistério da acção de Deus e da presença de Cristo.
Há uma razão antropológica neste apreço do sinal e do símbolo. O homem é feito de tal maneira que realiza tudo a partir do seu espírito interior e da sua corporeidade: não só alimenta sentimentos e ideias no seu íntimo, mas exprime-os exteriormente com palavras, gestos e atitudes. É que no fundo o homem não é uma dualidade “corpo e espírito”, mas uma unidade: ele é “corpo-espírito” e é a partir desta totalidade que ele se exprime e realiza, com palavras e gestos.
Também na celebração litúrgica, o louvor não é plenamente nem humano nem cristão enquanto não se manifesta na voz e no canto. O sentimento de conversão e a resposta do perdão não se realiza na sua plenitude se não se manifestam na esfera significativa: neste caso, é a esfera da Igreja onde ressoa o “eu me acuso” e o “eu te absolvo”: uma acção sacramental, simbólica, significativa, que dá realidade ao invisível e íntimo que sucede entre Deus e o cristão.
Por isso, o simbolismo é uma categoria religiosa universal. Na verdade, o ser humano, não só na sua própria expressão, ou para a sua actividade social, mas também e sobretudo para a sua relação com a divindade, serve-se da linguagem simbólica, exprimindo e realizando com sinais e gestos corporais a comunhão religiosa com o Invisível.
A dinâmica dos sinais religiosos funciona de muitas maneiras: sacrifícios, palavras, cânticos, objectos sagrados, acções, reverências, comidas, festas, templos…
No entanto, para os cristãos, o motivo fundamental destes sinais é o teológico: o melhor modelo de actuação simbólica temo-lo no próprio Cristo. Na sua própria Pessoa Ele é a linguagem mais expressiva de Deus, que nos quer mostrar a sua Aliança, a sua proximidade e o seu perdão. É também Cristo a melhor linguagem da humanidade na sua resposta a Deus: o nosso louvor e a nossa fé ficaram plasmados em Cristo, Cabeça da nova humanidade. Por isso, Cristo é chamado “sacramento do encontro com Deus”, ou como disse S. Paulo na sua segunda carta aos Coríntios: Cristo é o “sim” mais claro de Deus aos homens e o “sim” também mais concreto dos homens a Deus.
Além disso, Cristo utilizou continuamente a linguagem dos gestos simbólicos na sua acção salvadora: palavras, acções, contacto com as suas mãos, o olhar incisivo, os milagres…
E agora continua a fazê-lo do mesmo modo, no âmbito do sacramento global que se chama Igreja. Para nos dar alimento e fortaleza, pensou na acção simbólica da comida eucarística; para nos fazer nascer para uma vida nova, quer que recebamos o banho baptismal da água; para nos reconciliar com Deus, convida-nos para uma celebração do perdão, com as suas palavras e o gesto da imposição das mãos do ministro…
Por isso a liturgia, tanto pela carga humana como pela própria teologia da encarnação, tem os sinais e os símbolos como uma realidade fundamental na sua dinâmica.
José Manuel Marques Pereira
(Este texto não segue o novo Acordo Ortográfico)
Espaço da responsabilidade do ISCRA – Instituto Superior de Ciências Religiosas de Aveiro
