Declarações do senhor Reitor do Santuário de Fátima tornaram-se, inesperadamente, muito polémicas. Os exageros de alguma comunicação social dão já como certo rolarem as cabeças do próprio e do senhor Bispo de Leiria. E os desmentidos sucedem-se. Como são fáceis os fundamentalismos, quando falta a reflexão teológica, decidimos recordar alguns pensamentos do Vaticano II, que ajudem a fazer luz sobre a discussão.
1. Partindo do princípio de que é o mesmo Deus que a todos dá a vida e a respiração e tudo o mais (cf.Act.17,25-28) e que quer que todos se salvem (Cf.1Tm.2,4), a Lumen Gentium, nos números 15 e 16, considera positivamente a valoração de todas as religiões, desde as outras confissões cristãs, até às religiões monoteístas, estendendo o horizonte mesmo a formas incipientes de religião. Tudo o que nessas expressões e pessoas há de bom e verdadeiro considera-o a Igreja como preparação evangélica.
2. Depois, o mesmo Concílio, no decreto Ad Gentes (n.º 10), considera que a Igreja, “para oferecer a todos o mistério da salvação e a vida trazida por Deus, deve inserir-se em todos esses grupos, com o mesmo amor com que Cristo aceitou, pela incarnação, certas condições sociais e culturais dos homens com quem viveu.”
3. Na mesma linha de pensamento, decreta o Vaticano II – Unitatis Redintegratio (n.º 4) – que os católicos se interessem pelos irmãos das outras confissões cristãs, com eles dialoguem, reconheçam a legítima diversidade de vida espiritual, de disciplina, de ritos e de elaboração teológica, aceitem que “tudo quanto a graça do Espírito Santo realiza nos irmãos separados pode contribuir para a nossa edificação”.
4. E, na declaração Nostre Aetate (n.º2), exorta os fiéis a que, “com prudência e caridade, por meio do diálogo e da colaboração com os seguidores de outras religiões e dando testemunho da fé e da vida cristã, reconheçam, conservem e promovam os bens espirituais e morais, assim como os valores sócio-culturais nelas existentes.”
5. Estamos, também, já habituados a sintonizar com os encontros de oração inter-religiões convocados e participados por João Paulo II, de cuja ortodoxia ninguém duvida, de cujo senso pastoral todos nós abundantemente aprendemos. Aliás, o próprio senhor D. José Policarpo, Cardeal Patriarca de Lisboa, já participou em iniciativas congéneres. E a Santa Sé tem estruturas de diálogo permanente com esta diversidade de expressões religiosas.
6. Ninguém está a imaginar que, agora, se vão apear imagens de figuras católicas sobranceiras à colunata de Fátima, para vermos aí estátuas de Buda, símbolos induístas, muçulmanos, judeus, divindades egípcias… Tão somente se percebe que Fátima, que merece o respeito de fiéis de outras igrejas e religiões, com alguns sinais de afinidade, poderá oferecer a possibilidade de encontros de diálogo e oração, em prol de causas comuns, como na perspectiva do reforço das coisas que nos unem, para bebefício de uma humanidade que espera a frescura deste testemunho, a luz de uma visão religiosa da vida, do homem, do mundo.
Será isto heresia, oferecer condições desta aproximação de Deus, pela aproximação mútua?… Creio bem que o que há é saudosismos incorrigíveis, que, pela sua cegueira, degeneram em fundamentalismos!
