A região de Aveiro chegou a ter dezenas de estaleiros de construção naval – uma história rica que está a perder-se.
A história da construção naval na região de Aveiro e a sua importância económica, social e técnica para o sector marítimo nacional continua por fazer e encontra-se em risco de se perder definitivamente com o desaparecimento dos últimos “mestres navais” que laboraram em estaleiros como os de S. Jacinto, os da Gafanha da Nazaré e os que existiram até à pouco ao longo do canal da ria de acesso à cidade de Aveiro.
Com muitas dessas pessoas desaparece o “saber fazer” aprendido na experiência de décadas de profissão, as técnicas que cada um desses profissionais adaptava às suas necessidades, as histórias e os “segredos” que cada “mestre naval” possuía.
Quando da recuperação da fragata D. Fernando II e Glória, foi em Aveiro que se encontraram os mestres carpinteiros navais capazes de dar vida ao que restava desse velho casco de madeira, mestres que vinham no seguimento dos “Mónica”, que deram vida e fama aos estaleiros da Gafanha, e de onde saíram muitos dos antigos lugres (veleiros) bacalhoeiros da primeira metade do século XX.
Os Estaleiros de S. Jacinto inovaram na construção naval em aço, tendo daí saído alguns dos mais modernos navios da frota bacalhoeira (e da pesca longínqua) portuguesa, cujos projectos foram concebidos e executados por técnicos locais, e que muito contribuíram para a grande pujança da indústria naval portuguesa ocorrida desde o período final do Estado Novo e a entrada de Portugal na Comunidade Europeia.
Dos antigos estaleiros da Gafanha da Nazaré nada resta que ateste a existência dessa importante actividade naval. O que resta dos antigos estaleiros de S. Jacinto ainda ocupa uma área que é cada vez mais cobiçada em termos imobiliários. Dos pequenos estaleiros mais ou menos de cariz artesanal que se encontravam ao longo do canal da ria de acesso a Aveiro pouco existe.
Dos estaleiros navais (de onde saíram navios para a pesca do bacalhau) que existiram em Ílhavo (na zona da Malhada), na cidade de Aveiro (onde hoje está o monumento à Aviação Naval) e na Murtosa já nada resta… nem mesmo na memória dos habitantes daqueles locais.
Com isso, perdeu-se um espólio histórico, documental e técnico de inigualável valor, acervo que enriqueceria qualquer museu ou arquivo.
Sector empregou
centenas de pessoas
Na região de Aveiro, na segunda metade do século XX, a construção naval empregou directamente centenas de pessoas. Só nos estaleiros de S. Jacinto chegaram a trabalhar cerca de meio milhar de operários, muito deles altamente especializados, aos quais se juntavam os que laboravam na Navalria, na Carnave e em outros estaleiros de menor dimensão.
Mas a construção naval potenciava outras centenas de empregos em empresas que trabalhavam e dependiam dos estaleiros, entre as quais, as de carpintaria e mobiliário naval, de electricidade e electrónica naval, de tintas marítimas e de equipamentos náuticos.
Estaleiros
de lazer e desporto
A região de Aveiro também possuiu uma bem desenvolvida indústria de construção naval de embarcações de recreio e lazer, tanto de “lanchas” como de veleiros, incluindo de cariz marcadamente desportivo e de competição, como actualmente acontece com a unidade de Delmar Conde, na Mota da Gafanha da Encarnação.
Também essa história está por fazer, um pouco como também acontece com a história das pequenas embarcações da Ria de Aveiro e da costa aveirense (xávega). No entanto, neste sector da construção de embarcações da ria, há que registar o facto de alguns esteiros artesanais serem hoje núcleos museológicos.
Cardoso Ferreira
