Histórias de família

A Árvore de Zaqueu Três histórias: S. Pedro e a comunidade cristã enfrentam novos tipos de ser e pensar; uma carta de S. João conta o que lhe vai na alma; e as memórias de um serão intensamente dramático.

Recordar requer o dom de contar e só conta bem quem fez família com quem é recordado. E só recorda a sério quem guarda dentro de si a vida daquele que ama.

Mas também só é bom ouvinte quem se dispõe a partilhar dos sentimentos do contador; quem faz perguntas e é curioso de ouvir histórias que falem de mundos novos.

Todos nós sabemos que há péssimos contadores de histórias. Por mau jeito de articulação seja das palavras seja das ideias. Os piores, porém, serão aqueles que, justamente nas histórias importantes, se ficam por discursos «moralizantes», demasiado «angélicos», revelando que não vibram a sério com aquilo de que estão a falar. Caem numa linguagem quase incompreensível e apresentam os valores como tesouros intocáveis. Lembram certas leituras da liturgia – monótonas, demasiado «etéreas», sem ligação com a vida e, mais grave ainda, desvalorizando a alegria de viver (qual é o critério de escolha e de remodelação do texto original?).

Ora um valor, por mais venerável e venerado que seja, precisa de ser continuamente avaliado e sujeito a novos modos de expressão. De outro modo, deixa de ser um valor compreendido e querido por cada ser humano, transformando-se num instrumento de opressão – espiritual, política e física.

Aquilo a que damos mais valor deve ser o centro das nossas histórias. E à medida que as contamos é que a família vai descobrindo «o fio da história».

Os primeiros cristãos precisaram de contar e recontar como o Espírito de Deus levou S. Pedro a reconhecer algumas falhas de inteligência e vontade: a 1ª leitura descreve a dificuldade do «primeiro papa» em aceitar a família do centurião Cornélio como igual, em dignidade e direitos, aos cristãos judeus.

Os preconceitos humanos sempre nos impediram de aderir à sabedoria divina: esta é que vê em cada ser humano, sem excepção, a dignidade de representantes de Deus. Não foi Jesus Cristo desprezado e maltratado? Não disse ele que «quem manda seja como quem serve»? Não falou S. Paulo das diferentes funções e estatutos sociais de quem faz o trabalho «ou das mãos ou dos pés»? Uns e outros são a mesma família, onde a alegria não depende de ser o «homem rico» ou o «homem pobre». Quanto àqueles intrusos que só fazem roda ao «homem rico»… não querem mesmo ser da família.

Mas não esqueçamos duas coisas: S. Pedro foi capaz de «virar as tripas do avesso» para aceitar os pagãos como «família» e mais tarde pagou com a vida a fidelidade ao novo compromisso.

S. João continua a falar do amor. Conta-se que já os discípulos dele se queixavam de estarem sempre a ouvir a mesma música… Mas S. João insistia. Não há dúvida que era alguém super impressionado com «as histórias de Cristo»!

Numa família equilibrada, gente velha e gente moça, gente letrada ou não, irmão rico e irmão pobre… todos andam no mesmo rodopio, entre o arregaçar das mangas e a ternura dos beijos e abraços. Todos contam histórias e são actores de histórias.

Nessas famílias, ninguém nasceu para morrer: todos nasceram para serem ocasião de alegria e de se amarem e para ajudarem a alegria e o amor a vingar por todos os tempos.

É aceitável dizer que a dimensão religiosa se deve à saudade deste amor e alegria tão sentidos e tão desejados, e que sentimos nunca poderem acabar. A vitória da alegria não é a ressurreição de Jesus Cristo e a nossa ressurreição?

Jesus precisou de partilhar ideais e angústias, na intimidade com a «sua família». E fê-lo com tanto amor, tão certo de dar a vida porque há mais vida, que os seus amigos, desde então até hoje, se sentem cheios de força para viver e poder contar velhas e novas «histórias de família».

Manuel Alte da Veiga

m.alteveiga@netcabo.pt

(Este texto não segue o novo Acordo Ortográfico)