Horror à modéstia – crise de criatividade

Questões Sociais Nos artigos anteriores, abordaram-se algumas linhas de acção política susceptíveis de atenuar os efeitos da crise actual, e contribuir para algumas transformações profundas. Tais linhas respeitam à «rede social», ao desenvolvimento local, a duas resoluções da Assembleia da República, sobre a pobreza, e à concertação social. Todas elas correspondem a questões nevrálgicas, são pouco dispendiosas em termos financeiros e seriam de fácil «implementação», desde que houvesse disponibilidade mental para isso. Porém, ao contrário do que seria de esperar, estas vantagens não se assumem como tais; existe um verdadeiro horror à modéstia, nas forças político-sociais e mediáticas dominantes.

Para além destas linhas de acção, poderiam referir-se várias outras, também modestas. Eis algumas: na esfera social, o fomento da entreajuda de proximidade, a garantia de alimentação a quem dela necessite, o apoio domiciliário mesmo sem enquadramento institucional, a realização de pequenas obras em habitações degradadas, a compensação de despesas de creche e de jardim de infância, às famílias sem acesso a estabelecimentos de instituições sem fins lucrativos ou do Estado, o tratamento estatístico das diferentes situações de carência acompanhadas e a congregação de esforços para as respectivas soluções, a partir do nível de maior proximidade até aos centros de decisão política… Na esfera económica, podem mencionar-se: a qualificação da economia de subsistência e informal, o reconhecimento e promoção da economia familiar, o apoio técnico e de comercialização a micro e pequenas empresas…

O horror à modéstia vem deixando patente uma verdadeira crise de criatividade, traduzida especialmente na indisponibilidade colectiva, para a promoção de acções mais simples e baratas, como estas, bem como na dependência perante o Estado e a União Europeia. Actuando deste modo, a sociedade portuguesa perpetua as causas da actual crise generalizada e alimenta o engodo financeiro, a propensão para viver acima das possibilidades, a competitividade desenfreada no acesso a mais financiamentos e o menosprezo-exclusão dos «vencidos» na luta competitiva…

Sem pessismismo, pode afirmar-se que a nossa sociedade continua apostada no triângulo «dinheiro-mercado-Estado», atrofiando um outro mais vital: pessoa-entreajuda-iniciativa. Ironicamente, dir-se-á que talvez venhamos desenvolver a nossa capacidade de tirar partido de recursos escassos, daqui a alguns anos, quando surgir uma nova crise e não dispusermos de milhões de euros para a enfrentar…