Há 43 anos na comunidade de Santa Joana, em Aveiro, primeiro como capelão, depois como pároco (a reitoria ou paróquia experimental foi criada no dia 11 de Novembro de 1969 e a instituição definitiva deu-se no dia 19 de Setembro de 1976), o P.e Adérito Rodrigues Abrantes, 69 anos, ordenado no dia 25 de Julho de 1965, lidera uma comunidade dinâmica e em crescimento. O seu zelo pastoral e as suas palavras amigas e atitudes conciliadoras contribuíram decisivamente para edificação da comunidade humana de Santa Joana (para lá da comunidade cristã), como foi publicamente reconhecido, através da atribuição da medalha de prata municipal, em 2006, que a foto documenta.
Nesta entrevista conduzida por João Santos e Pedro Barros, seminaristas de Aveiro no Seminário Maior de Coimbra, ressalta o testemunho feliz de quem se entrega, no anonimato de todos os dias, ao serviço dos irmãos da paróquia de Santa Joana e de quem olha o futuro na procura de caminhos de fidelidade sempre novos.
CORREIO DO VOUGA – Como e quando percebeu que Deus o chamava a ser presbítero?
P.E ADÉRITO ABRANTES: De um modo mais concreto e decisivo, foi na fase final do meu curso de Teologia, na medida em que fui estudando a minha vocação, evoluindo como jovem, procurando crescer em todo o sentido, mas sem ver ainda claro, como eu gostaria logo de princípio, qual poderia ser o meu rumo.
Entrou para o Seminário muito novo, certamente…
Após a instrução primária, fui para o seminário. Nessa altura pouca gente estudava nas aldeias. Inicialmente, estava para ir para o Liceu. Acontece que um colega da minha idade e muito amigo, pressionado pelos pais para ir para o seminário, andou matreiramente à volta de mim, para eu continuar a estudar ao seu lado. Éramos só nós os dois que íamos estudar nesse ano, e eu acedi. Ao fim de um ano ele não se adaptou e veio embora. E eu continuei. Foi assim que começou a minha caminhada no Seminário.
O Seminário foi um tempo de crescimento…
Gostei muito, num tempo de disciplina bastante rígida, que não me traumatizou, nem a mim nem à maior parte dos alunos. A vida em conjunto com os colegas e superiores foi muito boa para a minha formação. Ajudou o facto de aceitar cumprir ordens, que já as trazia de casa, como é evidente, mas eram diferentes. Para mim foi bastante enriquecedor e dou graças a Deus por ter andado no seminário de Aveiro, nos primeiros oito anos, e depois nos Olivais (Lisboa).
Foi ordenado presbítero. Que desafios surgiram, sabendo que foi para Santa Joana, que até então ainda não era paróquia?
Depois de ser ordenado, fui dois anos para a paróquia da Branca, que tinha um pároco já bastante idoso. Ao fim de dois, D. Manuel de Almeida Trindade pediu para eu vir para Aveiro, residindo na Sé e sendo capelão destes lugares que pertenciam às três freguesias da cidade: Esgueira, Vera Cruz e Glória. Nessa altura estava já com a Acção Católica. E fui andando por aqui. Ao fim de pouco tempo, constatou-se que estas pessoas que estavam bastante separadas da cidade e do centro das freguesias, com estradas ruinosas, sem transportes, ansiavam por uma certa independência. Eu comecei a trabalhar aqui em 1967 e em 1969, no dia de S. Martinho, 11 de Novembro, D. Manuel criou a paróquia experimental a que se chamou reitoria de Santa Joana Princesa. Com o trabalho pastoral, senti a necessidade de vir viver para aqui, no meio das pessoas. Para isso, alugámos uma casa e começámos a trabalhar para a aquisição dos terrenos onde seria construída a Igreja.
Foi fácil o processo da igreja paroquial?
Não tínhamos um metro sequer. Começámos a construi-la numa altura um pouco difícil. Empreitámos a Igreja em Novembro de 1973 e em Abril de 1974 deu-se a Revolução. O Estado tinha-nos prometido 33% de comparticipação nas obras da Igreja e ficámos sem nada. Mas isso não nos levou a desanimar. Aliás, juntámos esforços e com a união e criatividade de todos, crianças, jovens e adultos, ao fim de algum tempo tínhamos os terrenos comprados. A Igreja foi inaugurada no dia 19 de Setembro de 1976. Nesse dia, a reitoria de Santa Joana Princesa passou a paróquia definitiva. Já lá vão 40 anos em que somos paróquia já com mínimo de estruturas. Passado alguns anos, construímos a residência paroquial, para onde me transferi e onde agora resido.
Entretanto, foi criada a freguesia…
A freguesia civil fez recentemente 25 anos de criação. Foi a comissão fabriqueira que, com mais dois ou três elementos, tratou de todo o processo da criação da freguesia civil. Felizmente, desde sempre, da primeira hora até hoje, tem havido uma relação muito directa, muito estreita, colaborante e penso que benéfica para a população entre a paróquia e o poder autárquico.
Por onde vai agora a paróquia de Santa Joana?
É uma pergunta que é um bocado complexa… Os começos não foram nada fáceis. Não estou a dizer que tudo quanto está aqui não foi feito com a generosidade das pessoas, da população, que era muito inferior á de hoje e muito mais pobre, mais rural do que propriamente operária, digamos assim. Felizmente, aos poucos foi-se criando tudo. A nossa grande preocupação foi a criação da Igreja viva, da comunidade. Penso que isso se mantém, mas as minhas limitações são mais que evidentes.
A que limitações se refere?
A idade já conta e, sozinho, não é muito fácil, para mim, pároco, fazer com que a comunidade evolua com os parâmetros que eu gostaria. Vale imenso é a colaboração dos leigos. Há muito que, felizmente, assumem as suas responsabilidades. Mas há muitas mais coisas que gostaria de fazer, se houvesse aqui mais alguém, um diácono ou sacerdote. Dadas as dificuldades e carência de clero, tenho que compreender. Seria bom que houvesse aqui mais alguém, até porque temos bastantes jovens. Ainda ontem [início de Fevereiro] estive reunido com largas dezenas deles, numa vigília a propósito da semana dos consagrados, e venho agora de uma reunião de pais dos escuteiros, que são quase duzentos. Dava para alguém se dedicar à Juventude, à Liturgia – actividades para as quais agora não tenho as capacidades que tinha. Penso que as pessoas hão-de compreender isto.
Olhando para o horizonte da Igreja Universal, estamos a celebrar o Ano Sacerdotal cujo lema é Fidelidade de Cristo, Fidelidade do Sacerdote. Como é que um padre é fiel nos dias de hoje?
Eu penso que é fiel da maneira como era nos dias de ontem e da maneira como há-de ser nos dias de amanhã. Com dedicação, com amor à Igreja, com amor ao próximo. Embora essa fidelidade seja muito difícil nos dias de hoje. As solicitações são imensas. O activismo muitas vezes rouba tempo à contemplação, à vida espiritual. Sinto essa lacuna, minha lacuna, até porque como estou só não tenho aquela capacidade organizativa como gostaria. Se calhar, há sectores que eu descuro um pouco mais e aos quais devia dar mais atenção. Isto também contribui para uma certa infidelidade em relação à minha missão e àquilo a que me propus quando me ordenei padre e quando vim para aqui. Portanto, não quer dizer que não vá fazendo algumas coisitas, mas sinto-me insatisfeito, pois gostaria de fazer muito mais.
Como é que sente que as pessoas olham o padre hoje?
Acho que é melhor perguntar isso às pessoas, porque eu posso ser suspeito. Uma coisa é certa, sou amigo das pessoas e a maioria das pessoas é minha amiga. Vamos dando-nos bem. Já nos conhecemos mutuamente. Penso que sei lidar, mais ou menos, com esta gente. As pessoas também já me conhecem e se calhar por isso, aceitam mais facilmente as minhas falhas. E, identifiquei-me com esta comunidade e vejo nesta comunidade uma família à qual eu pertenço. E na qual me sinto bem. Nesta inserção comum e nesta partilha de vida desde sempre com os paroquianos.
Para si, o que é ser padre e que desafios se levantam?
Para mim, ser padre é e sempre foi uma dedicação ao próximo e a Deus, na exclusividade. Claro que eu falei nas tarefas da paróquia, mas também durante trinta e poucos anos leccionei Religião e Moral na escola. Inicialmente com relutância, porque foi preciso que o senhor Bispo me pedisse durante três anos para ir dar aulas. Foi preciso três anos para aceitar. Gostei muito de ajudar. Procurei também que fosse exercendo o meu sacerdócio. Procurei ser uma presença da Igreja na Escola. Andei lá com essa preocupação. E penso que as pessoas também me respeitavam como sacerdote, como servo de Deus, como presença da Igreja. Ser Padre é isto mesmo, procurar ser Igreja, procurar exercer o meu ministério em favor do povo de Deus. Procurar assimilar o ministério do que é ser vocacionado, ser chamado. E tenho consciência disso. Faço com gosto aquilo que se me pede como pároco. Ser sacerdote é continuar a ser o mesmo, a ter as portas abertas quando nos batem, atender as pessoas sem quaisquer acepções, todas por igual, estar disponível para a caridade e para o que mais puder fazer. Com as minhas limitações, vivo o sacerdócio com entusiasmo e com o desejo de levar por diante, enquanto Deus me der forças para isso, as tarefas de que o Bispo em nome de Deus me for incumbindo.
