Questões Sociais Até ao século XIX, a acção social da Igreja prevaleceu em relação ao poder político. Mesmo quando o respectivo financiamento provinha deste poder, ou quando era ele próprio a tomar as iniciativas de carácter social, prevaleciam em geral as orientações eclesiais.
No século XIX, com a revolução liberal, ocorreu um movimento de sentido contrário e, daí, uma nova fase nas relações entre a Igreja e o Estado: o Estado passou a orientar-se por princípios laicos, opôs-se não raro às orientações da Igreja, criou os seus próprios equipamentos sociais e, gradualmente, consagrou e garantiu direitos neste domínio; também gradualmente, os equipamentos da Igreja (creches, lares, actividades de tempos livres…) pas-saram a integrar-se no ordenamento jurídico definido pelo Estado. E isso aconteceu com tal intensidade que alguns responsáveis da Igreja se têm interrogado se tais equipamentos não estarão a funcionar como verda-deiros prolongamentos da administração pública.
A prevalência do Estado é aparente, porque a acção socioeclesial não se reduz às actividades dos equipamentos; com efeito, ela abrange, para além destes, as actividades de: a) – contacto directo com as pessoas necessitadas; b) – conhecimento solidário dos respec-tivos problemas; c) – e orientação pastoral. O contacto directo efectua-se particularmente através de grupos de acção social, sem prejuízo do papel das instituições. O conhecimento solidário baseia-se, fundamentalmente, nesses contactos. E entre as actividades de orientação figuram: a animação motivadora para a prática social; a coordenação da mesma; e a espiritualidade baseada na acção social (sem exclusivo, evidentemente) e reflectindo-se nela.
Quanto mais se desenvolverem estes três conjuntos de actividades mais se realçam as que são específicas da Igreja, e também fica mais claro que a Igreja e o Estado se si-tuam em planos diferentes; entra-se realmente numa terceira fase. Nela, não prevalece a Igreja em relação ao Estado – como aconteceu na primeira – nem a relação inversa – como aconteceu na segunda – mas sim a diferenciação de identidades, cada uma com a sua autonomia.
Consegue-se assim que a «actividade caritativa da Igreja «mantenha todo o seu esplendor e não se dissolva na organização assistencial comum, tornando-se uma simples variante da mesma» («Deus Caritas Est», nº. 31). À luz desta perspectiva, parece recomendável que as dificuldades actuais no relacionamento com o Estado, relativas aos ATL e a outras questões, sejam aproveitadas não só para se preservarem serviços socioeclesiais necessários, controláveis pelo Estado, mas também para se intensificar e tornar mais visível a prática de outros serviços que estão fora deste controlo e de qualquer concorrência. Trata-se, em suma, dos serviços de solicitude em relação a outrem e a toda a humanidade; solicitude não redutível à tecnicidade, «independente de partidos e ideologias» e não subordinada ao proselitismo religioso (ibidem).
