Revisitando o Vaticano II Continuamos com Casiano Floristán a percorrer a Gaudium et Spes. Depois de observarmos a ideia central do Concílio sobre a pessoa humana e sobre o mundo, detemo-nos hoje sobre a relação Igreja-Mundo.
A Igreja tinha já reconhecido, desde Leão XIII, timidamente e sem entusiasmo, a autonomia do Estado. A GS afirma resolutamente que ‘a comunidade política e a Igreja são independentes e autónomas, cada uma no seu próprio campo’ (76). “O reconhecimento da autonomia temporal implica que a Igreja ‘não está exclusiva e indissoluvelmente ligada a nenhuma raça ou nação, a nenhum género de vida particular, a nenhuma tradição, antiga ou moderna’ (58).”
Fora de questão, qualquer modelo de Estado confessional, de sociedade sacralizada, muito menos clerial; os princípios evangélicos devem, isso sim, inspirar uma prática social orientada pelos “princípios da dignidade humana, da primazia do trabalho, dos direitos naturais do homem e dos grupos sociais, da existência de participação em todos os bens económicos e em todos os direitos políticos e educativos”.
“O espírito de serviço da Igreja em relação ao mundo está presente no capítulo III da primeira parte da Gaudium et Spes, ao falar da ‘actividade humana no mundo’. A Igreja – como luz dos povos – não se situa face ao Mundo mas no meio do Mundo. ‘Esta imagem dinâmica da Igreja – diz A. Amoroso Lima – à maneira de um fermento e de um mistério, que acompanha a humanidade em todas as suas vicissitudes, é muito apropriada para actuar no fundo de uma sociedade em período de transformação, como é a nossa, não como um obstáculo a essa transformação, antes como um estímulo a ela, na medida em que a transformação representa um avanço no sentido do verdadeiro progresso social’.
Em resumo, ‘a ideia de serviço – escreve Y. Congar – é provavelmente aquela que aparece com mais frequência nos textos do Concílio e nos Papas do Concílio, a que mais preocupou a consciência dos Padres’. A Igreja serve o Mundo, para que seja Mundo verdadeiro e justo, até que a Igreja e o Mundo se convertam em Reino de Deus.”
Este continua a ser o grande desafio à Igreja: renunciar às tentações de defesa, de ataque, de implantação majestosa, para ser fermento discreto e humilde, mas vigoroso, mistério transformador, a servir ao mundo, pelo diálogo transparente e corajoso, os valores evangélicos que proclama e testemunha.
Querubim Silva
