À Luz da Palavra A Palavra deste domingo coloca-nos diante de uma tarefa cristã: a de nos deixar-mos “transfigurar”, isto é, de mudarmos o nosso coração e a nossa vida, conver-tendo-nos à vida nova de Deus, que recebemos no baptismo, e que constantemente somos chamados a fazer crescer, através das mediações que Jesus Cristo deixou na sua Igreja.
A primeira leitura, tirada do livro do Génesis, narra-nos um ritual de aliança. A Abraão, homem velho, sem filhos e sem terra, Deus promete uma descendência tão numerosa “como as estrelas do céu”. E Abraão acreditou nesta promessa com uma confiança tão radical, que esta sua entrega plena aos desígnios de Deus lhe foi tida em conta de justiça. Então, Deus concluiu a aliança com Abraão, através de um misterioso cerimonial, mediante o que a promessa divina ficou totalmente garantida. Abraão, que até esse momento não passava de um homem velho e estéril, sem futuro, “transfigura-se” num homem novo, cheio de esperança na promessa de uma grande descendência e de uma terra promissora. Também eu confio em Deus e me entrego aos seus desígnios com serenidade e confiança, sabendo que Ele está comigo no meio das tormentas que agitam a minha vida? Esta a atitude mais correcta face Deus.
Na segunda leitura, Paulo avisa os cristãos de Filipos e a nós, também, de que a salvação não está alcançada; é um processo em que vamos amadurecendo sob o signo da cruz de Cristo. Caso contrário, estamos perdidos, como afirma Paulo relativamente a alguns filipenses: “O fim deles é a perdição: têm por Deus o ventre, orgulham-se da sua vergonha e só apreciam as coisas terrenas”. Nenhum de nós atinge a perfeição por práticas externas, porque o essencial está na mudança de coração, na “transfiguração” da nossa vida segundo Cristo.
Lucas, por sua vez, relata o episódio da transfiguração de Jesus, diante de três dos seus amigos: Pedro, Tiago e João. Jesus revelou-lhes uma outra face da vida, a vida divina que o habitava, e que é promessa para todos nós. Para contemplar tal maravilha, todos tiveram de fazer cami-nhada. Como Abraão, também eles deixaram algo para trás, para poderem subir ao monte. Este o “lugar” do encontro com Deus e com a sua palavra, mediatizada por Moisés (a Lei) e Elias (os Profetas). Jesus ficou resplandecente e os discípulos do meio da “nuvem” ouviram a voz do Pai: “Este é o meu Filho, o meu eleito: escutai-o”. Pedro, atordoado, queria ficar ali, sem percorrer o duro caminho do calvário e da cruz, sem se submeter à sua “transfiguração”. Mas Jesus chama-o à realidade. A experiência com Jesus, obriga-nos a “regressar ao mundo” para fazer da vida um dom e uma entrega aos nossos irmãos e irmãs. A fé cristã lança-nos na tarefa de colaborar na “transfiguração” do mundo e da humanidade.
II Domingo da Quaresma – Ano C
Gn 15,5-12.17-18; Sl 26 (27); Fl 3,17-4,1; Lc 9,28b-36
