Em cima da linha Todos os dias nos deparamos com pessoas que se lamentam e criticam mil situações do mundo em que vivemos. Confrontados claramente com as realidades contraditórias da nossa sociedade, preferimos virar a cara para o outro lado. Os grandes problemas do mundo não são encarados de frente. Paradoxal-mente, ou talvez não, preferimos ir por outros caminhos.
Quando questionados sobre as dificuldades económicas, comparativamente com o passado, e postos perante as desigualdades sociais que afectam a maior parte da humanidade, levantam-se, imediatamente, as barreiras do costume: a indiferença, o distanciamento, o anonimato. Às vezes mesmo, refugiamo-nos no nosso egoísmo e fechamos os nossos olhos para não ver aquilo que, de forma nenhuma, convém às linhas do nosso pensamento e comportamento. Ou então, que posso eu fazer para acabar com tais situações? Tudo parece depender dos outros, ou tudo parece acontecer na casa do vizinho. Com o crescer progressivo da riqueza material, valor importante para a nossa qualidade de vida, vamos hipotecando, paralela e cobardemente, a nossa riqueza humana, a nossa cultura e a nossa sensibilidade moral.
As imagens chocantes, que nos chegam de todo o mundo, cortam a respiração e partem o coração daqueles que ainda não permitiram que ele se congelasse. Essas imagens vêm acompanhadas pela mensagem de que não devem ser vistas por crianças e pessoas mais sensíveis. Que imagens são essas?
O mundo que nos choca pelas imagens é o mundo dos horrores da guerra em todas as suas expressões, desde os bombardeamentos aos ataques suicidas, desde as armas nas mãos das crianças até aos massacres mais refinados, desde os atentados ao terrorismo; são as imagens angustiantes de milhares e milhares de refugiados, amontoados em espaços sem condições dignas de um ser humano; são as degradantes imagens da fome no mundo e das condições miseráveis a que estão sujeitos milhões de subalimentados, em contraste com imagens não-chocantes de lautos banquetes e alimentos, em quantidades enormes, a serem lançados para os animais ou para os caixotes do lixo, que são revistados e revisitados todos os dias, e muitas vezes ao dia, por aqueles que “têm o vício de por lá passar”; são as imagens inacreditáveis de seres humanos que apodrecem vivos por acção de lepra, a par das também inacreditáveis imagens das operações estéticas, tão inestéticas, às vezes; são as imagens chocantes das limpezas étnicas e do extermínio puro e simples dos opositores políticos ou militares; são as imagens chocantes dos condenados à pena de morte ou à tortura; são as imagens chocantes de crianças e de idosos abandonados, maltratados ou desprezados; são as imagens chocantes do aborto, da droga, do álcool, dos raptos, dos maus tratos, da vio-lência familiar, … numa palavra, são as chocantes realidades do nosso mundo, ainda assim menos chocantes do que a dos olhos e os ouvidos fechados ao clamor dos pobres e empobrecidos, nesta sociedade cada vez mais rica, mais capaz de resolver os problemas da humanidade, mas sempre e cada vez mais apodrecida na sua devoradora vontade de comer tudo, sem permitir que, ao menos, os outros possam beneficiar dos restos.
Do outro lado, são os acomodados, os indiferentes, os partidários do “tanto faz”, os surdos às vozes dos oprimidos, os que tendo olhos não querem ver e os que, embora vejam, não se sentem afectados nem se vêem na pele dos outros. Muitos, instalados na sua invalidez social e na sua desumana inutilidade, só olham para o seu umbigo e, quando falam, falam como reis e senhores deste mundo e dos outros, se os houver, e actuam como se ao monopólio do dinheiro correspondesse o monopólio da inteligência, em cujas mãos (mangas) se encontram, supostamente escondidas, as soluções fáceis para todos os problemas difíceis.
Imagens chocantes mas reais deste tempo, século XXI, e deste mundo “civilizado”, inundado e abafado por mil declarações universais de direitos humanos, sonoramente proclamados, mas com níveis muito baixos de aplicação. O problema é que estas declarações, apelidadas de universais, não foram feitas para serem cumpridas por todos nem aplicadas a todos.
Não gostamos de ver imagens de animais que se atacam e matam uns aos outros, mas divertimo-nos a ver a espécie humana a transformar um mundo, que se desejava saudável e habitável, numa verdadeira selva humana.
Para onde foi a dignidade humana, se há homens de primeira, segunda ou terceira classe? Para onde foi um mundo que era de todos e se tornou apenas de meia-dúzia? Para onde foi a verdade que é o suporte da justiça social e do respeito pela igualdade de todos? Será verdade que todos somos iguais, mas que alguns são mais iguais que os restantes? Onde está a lei, que permite a exploração e a colonização camufladas sob a capa da ajuda económica? Para onde foi despachada a seriedade e a honestidade dos negócios e das relações entre as pessoas e os povos?
Capazes de lutar para salvar as espécies vegetais e animais em extinção, capazes de realizar manifestações de nus para reclamar contra a morte de certos animais, cuja pele pode ser utilizada para a confecção de casacos destinados aos ricos, indiferentes, por outro lado, à tortura e à morte dos seres humanos, indefesos desde o seio materno até à idade avançada, sem sociedades protectoras dos homens, caminha-mos para a destruição e ruína da espécie humana. Transformados em feras, com este devorador e insaciável apetite de matar, teremos de rasgar as Declarações universais e estabelecer universalmente a lei da selva humana, baseada na lei do mais forte.
Assim ficará tudo bem justificado e o futuro não irá fazer cair sobre nós qualquer acusação por crimes cometidos contra a humanidade!…
