O Presidente da República, no direito que lhe assiste, vetou a nova lei do divórcio e deu razões do seu acto. Logo vieram à praça pública pessoas e grupos para protestar e o mimosear com os habituais epítetos. Sempre os mesmos: conservador, reaccionário, travão do Portugal moderno. Os jotas do PS, incontidos aspirantes a cargos políticos, não pouparam as críticas, afirmando à sua maneira que “ninguém nos trava”. O Dr. Louçã, a sonhar com uma coligação que o possa levar ao governo, fez no essencial coro com a vaga socialista. Manuel Alegre, numa aproximação pensada e interessada, disse que “este veto não é só político, mas ideológico e que traduz uma visão conservadora e ultrapassada da vivência e necessidades da sociedade actual”. Frase cuidada a não dizer nada. Pedro Passos, para não espantar a gente nova, também disse sim e não.
No dizer dos mais empenhados em esvaziar o país de compromissos consistentes, negar valor à instituição familiar, pôr debaixo do tapete direitos de alguns cidadãos, fazer dos portugueses uma carneirada abúlica e submissa à qual só se permite dobrar a cabeça aos poderes da maioria democrática, o Portugal moderno precisa do divórcio facilitado, do casamento dos homossexuais, do uso livre das drogas, do aborto sem restrições, da eutanásia a pedido, de cortar com o conservadorismo da Igreja…
Entretanto, “quatro homicídios em 24 horas”, assaltos de dia e de noite aos bens de quem trabalha, roubo e viaturas com violência com aumento de 73% em Abril e 63% em Maio, páginas de jornais diários com publicidade à prostituição, casas de penhores franqueadas por gente que aí deixa, com lágrimas de sangue, pedaços de vida, criminosos à solta por via de leis que parecem protegê-los, aumento de desemprego, leis do trabalho que até abafam desregramentos e injustiças do Estado patrão, desmotivação crescente de professores, médicos, magistrados judiciais, forças de segurança, empurrões compulsivos aos jovens sem futuro à vista, intoxicação do país com meias verdades. Pinceladas, hoje, do Portugal moderno a delinear futuro que não queremos.
As razões do PR, que tem o direito e o dever de velar pela acção da assembleia legislativa e do governo, são tidas como desfocadas da realidade. De facto, elas fogem ao interesse dominante de pessoas e grupos que fazem da modernidade da realidade nacional uma interpretação falaciosa. A este proceder crítico, que goza dos favores de órgãos da comunicação social, pode chamar-se tentativa de ditadura política, facciosismo ideológico, usurpação encoberta do país por gente que, da realidade e da cultura, tem uma visão superficial e pobre. Mas será capaz de outra?
Sempre houve e haverá na sociedade desvios, males e problemas. As mudanças sociais e culturais agravam-nos com repercussões, por vezes graves, nas pessoas e na sua relação, nas instituições que marcam a vida dos cidadãos, como a família, a escola, as instâncias culturais e políticas, na apreciação serena dos valores morais e éticos, no modo de viver e entender o presente que se vive e o futuro que se projecta. Perante isto, aumentam as opiniões e as divisões. Os poderes digladiam-se sempre que a vida em sociedade se torna mais difícil e surgem então os bodes expiatórios. É altura de todos assumirmos, com humildade, as limitações, pois que, nas situações complexas ficam mais a descoberto a fragilidades e incapacidades de cada um.
Não é do exterior que vem a solução possível. Ela reside na força interior que leva ao respeito mútuo, ao diálogo aberto, à aceitação das diferenças, à análise objectiva da realidade, à colaboração sadia, ao cuidado de não fazer dos outros os eternos culpados dos males que grassam. O mal não está nos erros e desvios. Está em quem os nega, justifica e defende, como se fossem virtudes.
Os políticos devem olhar menos para si e seus interesses e mais para os problemas a resolver. É este o caminho da liberdade democrática, mesmo das maiorias absolutas.
