Pensar a Paróquia A situação da maioria das pessoas que têm de viver o luto pela morte de alguém que lhes é querido é reveladora do baixo índice de humanidade e da grande pobreza espiritual em que se encontra a sociedade e a instituição eclesial, designadamente a comunidade paroquial. Fazer o luto converte-se, frequentemente, em drama pessoal e em desafio pastoral.
Surpreendidas pelo ocorrido – a morte, mesmo quando é esperada, comporta sempre algo de estranho que deixa o ser humano perplexo –, sem qualquer apoio terapêutico, fragilizadas nas resistências emocionais, abaladas nas convicções religiosas – se as tinham – como podem as pessoas em luto viver aquela situação com o mínimo de perdas e máximo de ganhos?! Como ajudá-las a reorganizar o seu mundo interior e a sua vida em todas as dimensões?! Como propor-lhes o Evangelho da vida e da esperança, em período tão sofrido e desolador?!
Estas interrogações constituem uma espécie de acicate à opinião pública e, sobretudo, à prática pastoral das paróquias, na esperança de que as opções feitas, as prioridades estabelecidas, as atitudes assumidas e a gestão do tempo organizado acentuem o rosto “samaritano” da comunidade eclesial.
Os serviços em torno da doença grave e da morte iminente vão sendo assumidos por agências especializadas que tudo prevêem e dispõem. A pessoa enferma é frequentemente isolada e quase desaparece e, em muitos sítios, só volta a reaparecer depois de morta e já devidamente preparada para o funeral.
Este “rapto” do acontecimento morte repercute-se em todo o processo do luto e dos seus ritos que, em grande parte, são “varridos” do público e remetidos para a esfera particular. A família dorida vê-se sozinha e sem suporte consistente, psicológico e religioso. Nesta experiência única e irrepetível, torna-se indispensável uma adequada terapia do luto, cientificamente elaborada ou não, mas sempre fruto da presença amiga e empática, expressa na adequada relação de ajuda.
A morte faz parte do processo de perdas que todos nós vamos vivendo ao longo dos anos. Começa com a primeira célula humana e termina objectivamente com a paragem efectiva do funcionamento cerebral. Ninguém fala da sua morte por experiência própria. Mas vive-se intensamente o ir morrendo pessoal e a fase terminal de alguém que é familiar, próximo ou amigo. A única excepção a esta regra acontece com Jesus Cristo – aquele que esteve morto e agora vive para sempre – ainda que esta vida seja uma vida glorificada.
A situação de luto normal (não se trata de luto patológico, que pode configurar-se de outro modo) é caracterizada pela dor e pelo mal estar, pela sensação de debilidade e incapacidade de resistência, pela perda de apetite e do sono, pelo sentimento de culpabilidade, pelo embotamento da sensibilidade, pela experiência de solidão, pela desorganização interior, pela negação do ocorrido e pela tentativa de refúgio junto da figura da pessoa amada falecida.
Além destes sintomas – que podem ocorrer em diferentes situações –, há outros muito diversificados, designadamente quando quem vive o luto é crente pouco esclarecido e cultiva uma desfigurada e aterradora “representação” do que acontece depois da morte. Seja qual for o sintoma, o luto é vivido de modo pessoal, é a pessoa em luto que está em causa.
A sabedoria popular definiu o período de luto normal a partir do tempo de gestação no seio materno e estabeleceu uma data significativa por ocasião do primeiro aniversário do falecimento para “levantar” o luto e evocar humana e religiosamente a memória do falecido. Durante o ano, fez surgir uma série de gestos e ritos destinados a ser presença e a acompanhar a família enlutada e, também, a sufragar a alma do defunto.
A comunidade paroquial dispõe de uma enorme riqueza de meios para estas circunstâncias. Precisa de os conhecer e valorizar, de preparar voluntários que se disponham a fazer este serviço nobre e exigente, de proporcionar a todos, sobretudo a quem mais sofre, um ambiente acolhedor e familiar. É nas horas em que o espírito humano se interroga profundamente que tem pleno cabimento uma palavra de conforto, ainda que breve, uma presença discreta ou silenciosa, uma oração expressiva dos sentimentos vividos, um gesto de mãos enlaçadas.
Dos meios comuns a todas as paróquias, convém destacar e valorar devidamente a visita à família, quando se aproxima a agonia de algum dos seus membros (esta visita está facilitada quando a comunidade dispõe de um serviço organizado para acompanhar os doentes ou para lhes levar a comunhão), a realização do velório, a celebração do funeral nos seus momentos marcantes, o rito da sepultura e despedida, e outros factos relacionados com a família da pessoa falecida e o evocar o nome desta em actos litúrgicos da assembleia cristã.
Fazer o luto é sempre um trabalho pessoal que tende a recriar de forma nova a relação com o ente querido que morreu, a questionar a crença na imortalidade e, por vezes, a reequacionar a sua fé na vida eterna.
Apesar de pessoal, fazer o luto necessita da ajuda de quem sabe acompanhar. Por isso, os voluntários de tão nobre serviço devem familiarizar-se com o processo, evitar frases feitas, acolher e provocar desabafos, manter os contactos, cultivar as recordações, ajudar a fazer escolhas e a tomar decisões, mobilizar os recursos comunitários; devem também ser símbolo da esperança e facilitar a descoberta de novos motivos para viver. As instituições hospitalares e as confissões religiosas, especialmente as paróquias, têm aqui um papel insubstituível. O tempo do luto constitui uma oportunidade excepcional de evangelização: favorece o despertar de sentimentos de solidariedade e refaz laços de amizade, proporciona espaços de encontro e aproxima pessoas, constitui um momento peculiar de anunciar a esperança e de praticar a misericórdia, centrando-nos no amor com que Deus, em Jesus Cristo, nos ama e salva.
