Poço de Jacob – 38 Este termo, usado como forma de consagração elevada no Movimento Apostólico de Schoenstatt, mas também presente na vida de muitos cristãos, embora não de modo tão explícito, significa que eu me entrego a Deus, não só para que Ele escreva em mim a sua história, como se eu fosse uma carta branca, mas para que Ele me envie todos os sofrimentos que sonhou para mim, mesmo aqueles de que eu tenho medo. Linguagem incompreensível para o mundo, que quer um Jesus saudável e não penitente, um Jesus sorridente mas não exigente. E que, sobretudo, nada quer com o sofrimento.
De facto, o sofrimento, por si mesmo, não tem nenhum valor. Quando muito, ele purifica e até educa o homem. Bem diz S. João da Cruz: Que sabe aquele que nunca sofreu? Mas a dor só tem razão universal de ser à luz de Cristo crucificado, que ressuscitou. Só tem sentido diante de um crucifixo, que sabemos ser porta para a ressurreição. A cruz e a ressurreição estão unidas. Só desse modo podemos entender o mistério da dor e da morte. E, claro, com muita oração de contemplação do mistério de Cristo, diante do Pai e diante dos homens. Por isso, o cristão vai crescendo na compreensão da sua vida e vai entendendo o que S. Paulo quer dizer ao afirmar que só com muitas tribulações se alcança o Reino dos Céus.
Claro que o aborto, a eutanásia e certas formas de limitação da natalidade são vistos à luz de se evitar sofrer e que muitos pais têm horror em ter um filho deficiente. Entende-se, mas, à luz da fé, não há acasos e para cada dor existe a graça correspondente para levar a cruz.
Se os homens entendessem a vida numa linha de “inscriptio”, muitos jamais se divorciariam. Não que se justifique o crime de agressão do cônjuge, que, por si, é condenável. Mas é necessário saber superar as diferenças e aceitá-las, já que levam a tanta saturação, por vezes após poucos dias e meses de casamento. Não se quer sofrer, nem renunciar, nem abdicar de direitos ou pseudo direitos. O homem não reza e suas opções são às cegas. Não consultam Deus sobre as decisões a tomar. Casa-se porque se gosta… Seguem-se os ventos da moda… O sacrifício não entra nos nossos planos. Então, andamos como zumbis, sem saber qual é o nosso lugar, por não nos sentirmos bem em lugar nenhum. Por isso, deixar Deus agir e estar atento ao que Ele me diz em cada circunstância, por difícil que seja, ajuda a entender que nossa vida não é determinada por uma força invencível, mas corresponde a um plano de amor que exige a minha colaboração incondicional e que me levará a uma identificação com o Jesus da Cruz e, num dia sem ocaso, com o Jesus da Glória. A palavra-chave criou e recriou o mundo: “Fiat” (“Faça-se”).
P.e Vitor Espadilha
