Poço de Jacob – 127 Dizem os insensatos em seu coração: “Não há Deus!” Ou, outro texto bíblico, sobre a morte do Justo: “Aos olhos dos insensatos, parece ter morrido e sua saída deste mundo foi considerada uma desgraça”.

A palavra “insensato” aparece muito na Bíblia e o Livro da Sabedoria contrapõe-na a prudente. Diz que a Sabedoria fez a sua casa e chamou os insensatos para comer do seu pão. S. Paulo também diz para não sermos insensatos, mas procurarmos a vontade de Deus.

Ser insensato não é ter falta de inteligência. Mas sim ter outra orientação na sua vida. O insensato carece de bom senso. O insensato relativiza a vida, não salientando o Absoluto. Vive para o que os sentidos lhe oferecem. Os cinco sentidos são a grande orientação da sua vida. O insensato vive para o que come ou bebe, para o que ouve e vê. Para o que toca e cheira. O que a matéria da vida lhe dá. O insensato vive nisso e nisso põe toda a sua confiança. Vive alicerçado na confiança que tem no homem.

A Bíblia diz que quem só confia no homem é um infeliz. Pois, de certo modo, cada ser humano desilude o outro de alguma maneira e alguma vez na vida. Ouvi um mestre de espiritualidade dizer que é também uma missão que acabamos por ter uns com os outros. O nosso coração deve chegar a um ponto em que nos desapegamos de tudo e todos para sermos só de Deus. É aí que surge a função da desilusão. Por isso, o insensato sente que o médico é a sua segurança, ou o ecónomo, ou o polícia, ou a família. Tem razão, claro. Mas, um dia, essas realidades podem falhar ou não atuar mais – ou em tempo útil. O que fica então? O desespero, alimentado pela desilusão de que, afinal, a vida não é o que se deseja e nossos desejos são bem maiores do que ela nos pode oferecer, do que aquilo que os sentidos nos podem oferecer. Por isso, acho interessante que a Sabedoria convide o insensato a sentar-se na sua mesa. Ela quer partilhar com ele o seu pão. E isso, em latim, diz-se “cum panis”, ou seja, “companhia”.

Deus quer fazer companhia ao homem. Deus quer partilhar com ele o Seu Pão Vivo, a Sua Carne e o Seu Sangue. Essas ideias estão nas leituras que foram lidas no domingo XX do Tempo Comum, Ano B.

Jesus quer ser a nossa companhia para que, quando tudo falhar e só ficar o silêncio do existir, por vezes amargo ou derradeiro, saibamos que Ele é o único que ficou. Ele é o único que acompanhou e deu resposta ao mistério da vida. Por isso, Jesus insiste tanto no capítulo 6 de S. João que quem comer a Sua Carne e beber o Seu Sangue aposta no caminho da prudência. E permanecem um no outro, a fazer “companhia” um ao outro.

Este é o projeto e o lindo convite de Deus: Deixar que Ele seja a nossa companhia, que possamos comer e deixar que Ele partilhe connosco o seu pão, que é Ele mesmo.

O insensato só o é quando exclui Deus da sua vida, quando não aceita que a Vida Eterna é o grande convite para estarmos mergulhados na Vida sem fim. E que chegamos lá pela adesão à vontade do Senhor. Por isso, o caminho da prudência indica-nos Deus como Caminho, Verdade e Vida, em Cristo Jesus, o Pão vivo descido do Céu, para dar a Vida ao mundo.

Vitor Espadilha