Interrogações

1. O país parou! O país pára por qualquer coisa. E, num ápice, transfigura-se o clima nacional: de uma frustração consistente, passa-se a uma euforia inebriante, que é como quem diz, perfeitamente alienante, e da mesma forma efémera.

Também gosto que a selecção nacional alcance vitórias. As cores nacionais agitadas em manifestação jubilosa emocionam-me mesmo. A festa do desporto é salutar, se não é pervertida por estratégias ocultas, incapacidades diluídas em dissimulações, ensombrada por estrelas tão intensas, que a poder de tanto quererem brilhar ofuscam todo o espectáculo.

Que Portugal vá em frente, no futebol; mas, acima de tudo, que tenha consciência que o seu futuro se constrói não com futebol mas com produtividade, com amor ao trabalho, com harmonia social – que o futebol muitas vezes desarranja, com o seu escandaloso mundo dos dinheiros, com os vícios que instala, desde as estruturas organizativas aos atletas, atingindo também os habituais frequentadores.

Em frente, Portugal! Em frente na garra para pegar o futuro em mãos!

2. Nutro respeito por quem pensa diferente. Espero sempre que também os diferentes se respeitem. Penso diferente de Saramago. Nutro respeito pela sua obra literária, ainda que discordando da intencionalidade da maior parte dela. Não me parece que ele tenha nutrido o mesmo respeito pelos que têm convicções das que ele tinha.

Discordo do endeusamento vivido nestes dias. Longe de estar de acordo com a elevação do escritor a máximo “escultor da língua portuguesa”. Contributos significativos deu-os, sem dúvida. Mas nem tudo foi construção de uma identidade de “alma nacional”. Séculos de literatura portuguesa, dos mais diversos quadrantes e géneros, construíram um património irrenunciável, que de modo algum se eclipsa com o brilho de uma estrela.

Pese, embora, um título ímpar para a galeria nacional de troféus – o Prémio Nobel – é bom lembrar que não foi de todo unânime essa atribuição e que muito se disse sobre as suspeitas de cor partidária nessa atribuição.

Mérito, sem dúvida. Mas não temos que ir todos ao funeral, nem temos todos de vestir de luto. Até porque me sobra uma dúvida: o amor a Portugal traduz-se numa retirada de conveniência? Muitos fizeram-se exilados, em exílio dourado; enquanto outros permaneceram de pé, como as árvores, sofrendo as consequências da sua integridade.

Homenagem, sim! Mas com medida!