O I Congresso Nacional da Pastoral Social decorreu em Fátima, de 9 a 11 de Setembro. Teve como tema “Intervir na Sociedade, Hoje! Memória e Projecto”
e contou com 300 participantes. Encerrou o congresso o Cardeal Martino, Presidente do Conselho Pontifício Justiça e Paz, que anunciou que o seu conselho publicará em breve um documento sobre “A pobreza na era da globalização” e que Bento XVI prepara uma encíclica social. O Correio do Vouga, com a Agência Ecclesia, destaca as principais intervenções.
Assistência, promoção e justiça
“Os problemas sociais têm-se multiplicado e agravado na sua complexidade e nos seus efeitos. A Igreja, ao serviço das pessoas – não é outra a sua vocação –, tem de estar cada vez mais atenta e interventora, sabendo ler atempadamente os sinais dos tempos e ouvir, com coração sensível, os gritos de dor dos inumeráveis “feridos da vida”.
Dispomos hoje de mais meios humanos e técnicos, há mais abertura à colaboração entre os diversos agentes sociais, cresceu na Igreja a consciência de serviço às pessoas, faz-se um diagnóstico mais objectivo das situações e das necessidades. Já ninguém pensa que a pastoral social se esgota em acções assistenciais. Sem se negar a estas quando necessárias, o caminho vai na linha da promoção em ordem ao desenvolvimento, à justiça e ao bem comum. Complementarmente, à defesa e implementação das estruturas indispensáveis. As três acções devem conjugar-se para uma melhor resposta aos problemas e maior empenhamento das pessoas e das comunidades”.
D. António Marcelino
É necessário um provedor dos pobres
Manuela Silva disse acreditar que “terá aumentado o grau de consciencialização colectiva acerca da pobreza do nosso país, pelo menos relativamente às suas expressões mais gravosas”.
A presidente da Comissão Nacional de Justiça e Paz lamenta que pessoas e instituições continuem “presos a preconceitos desresponsabilizantes quanto às causas da pobreza e, consequentemente, surdos e mudos em relação à necessidade de as remover, agindo sobre as estruturas e debilidades do sistema que as geram e tendem a perpetuar”.
Manuela Silva defendeu que perante a aceitação por parte da Assembleia da República de que a pobreza é uma violação dos direitos humanos é “necessário criar mecanismos estaduais e autárquicos de prevenção e erradicação da pobreza que sejam eficientes e que permitam assegurar, de facto, o respeito por aqueles direitos e obrigações”.
A presidente da CNJP admitiu mesmo a criação de uma provedoria de direitos dos pobres, trabalho a ser desenvolvido pelas instituições de solidariedade social.
Sociedade desligada do mundo prisional
De um modo generalizado, a sociedade “não está muito envolvida na problemática das prisões, nem da prevenção do crime, nem da ressocialização, nem do apoio às vítimas, nem do apoio e ajuda às famílias dos reclusos, como também não está muito sensibilizada para uma verdadeira justiça restaurativa”, afirmou o Pe. João Gonçalves, coordenador nacional da pastoral penintenciária/prisional. O sacerdote da Diocese de Aveiro apelou para que a sociedade não fique “indiferente ou apenas a observar onde as coisas podem ir parar, muito menos numa posição de crítica destrutiva ou permanente condenação daquilo que se faz ou não faz”, e defendeu a criação de comissões de pastoral penitenciária em cada diocese. Só servindo as pessoas em situação de sofrimento (em Portugal são mais de onze mil os que estão a cumprir medidas privativas de liberdade), a Igreja dá “visibilidade ao Mandamento do amor, nosso «cartão de visita»”.
Jorge Cunha
A acção social da Igreja deve ser “profética” e “não apenas assistencial”, defendeu Jorge Cunha. Quando se criam instituições de acção social “não estamos apenas a socorrer uma necessidade imediata”, mas a criar algo que simboliza “aquilo que deve ser a sociedade de todos”, sublinhou o professor da Universidade Católica Portuguesa – Porto.
Falando nos critérios mais imediatos da acção social da Igreja, Jorge Cunha coloca em primeiro lugar “a opção preferencial pelos pobres”. Este critério “é evangélico, actual e urgente”. Se a acção social fosse pensada segundo o critério anunciado, “estaríamos num lugar bastante diferente” do actual.
O serviço dos pobres reclama fé e conversão
“É possível erradicar a pobreza, bastando para isso, vontade política. Para nós, cristãos, é necessária uma verdadeira conversão do coração. O serviço dos pobres reclama fé e conversão, pois de outra forma corrermos o risco de curar com uma mão as feridas que produzimos com a outra. Por outro lado, este serviço exige paciência e sentido pedagógico. Há que aceitar, de antemão, a lentidão e os possíveis fracassos. Uma caridade que não está fundada na fé e dinamizada pela esperança, não superará um mero humanismo. E a Igreja está chamada a ser mais que uma associação humanista”.
Eugénio Fonseca,
Presidente da Caritas Portuguesa
A urgência do nosso tempo é afectiva
A intervenção social da Igreja “só será pertinente” e realizará com “eficácia aquilo que anuncia” se “investir no despertar da dimensão espiritual do Ser Humano”, afirmou Isabel Varanda, professora da Universidade Católica Portuguesa. “A urgência do nosso tempo é afectiva”, disse.
A oradora defendeu uma nova “Teologia da libertação”, “uma libertação dos deuses menores a quem o mundo contemporâneo se rendeu”. A Nova Evangelização terá de passar, “por uma pré-evangelização assente num despertar” porque “se deixou de saber lidar com o símbolo, com o mistério e com o transcendente” – afirmou.
O mundo de hoje sofre “de iliteracia emocional, de défice na educação das emoções”. Nota-se uma “perda da dimensão afectiva da relação com Deus e entre os humanos”, mas, paradoxalmente, “proliferam movimentos religiosos que a sociologia chama de nova religiosidade”, ao mesmo tempo que o ateísmo laico “é rentável”. “Deus vende bem, principalmente no tom jocoso, irónico e cínico”.
Há um excesso da tecnocracia social
O Estado “deve ser suplente” em situações onde a sociedade funciona melhor, defendeu Bagão Félix. O antigo ministro falou do decreto-lei que regula a acção das instituições sociais (elaborado há 25 anos, quando era secretário de Estado da Segurança Social) e realçou que “há muitas pessoas que fazem o discurso das Instituições, mas não acreditam nisso”.
Muitas vezes, esquece-se o “primado da sociedade em relação ao primado Estado” – lamentou. E apontou soluções: “Evitar-se cair no excesso da tecnocracia social”, porque “são verdadeiros adversários do bom desempenho das instituições da sociedade”.
Aos jornalistas, Bagão Félix lamentou que haja instituições sociais católicas “presas” do Estado social. “Há muitas instituições sociais da Igreja que nem sequer fazem referência à doutrina social da Igreja, onde é impossível dizer a palavra caridade, onde não há espiritualidade nem formação cristã” – afirmou.
Para evitar o domínio na vertente financeira do Estado sobre as instituições, Bagão Félix propõe: “Tem que se alterar o sistema de financiamento; este tem que se ser dado às famílias e não às instituições.”
