Três perguntas a António Machado, Leigo Carmelita António José Gomes Machado, teólogo leigo carmelita, do Porto, esteve no Carmo de Aveiro, onde proferiu uma conferência sobre a juventude de Isabel da Trindade, uma das “estrelas” da Ordem. A jovem morreu em Novembro de 1906, pelo que a Ordem do Carmo está a comemorar o centenário da sua morte.
Correio do Vouga – Isabel da Trindade era como os jovens de hoje? Ou muito diferente?
António Machado – Podemos dizer que Isabel da Trindade era como os jovens de hoje e também diferente. Começo pelo fim… Isabel era diferente dos jovens de hoje, porque o tempo em que viveu era diferente. A educação e a formação religiosa que teve são distintas das que a maioria dos jovens tem hoje em dia. Apesar de ter vivido num tempo, cultural, filosófica e politicamente precursor da era pós-moderna em que actualmente vivemos, persistia, no entanto, uma sensibilidade maior para a vivência e prática religiosa, o que muito ajudou também na caminhada espiritual de Isabel. Por isso, podemos dizer que era diferente.
Por outro lado, podemos dizer que Isabel era como os jovens de hoje. A juventude é o tempo da aventura, das grandes emoções, de viver a vida apaixonadamente. É o tempo dos sonhos, dos projectos e também da tomada de decisões. E Isabel não foge à regra. Vive apaixonadamente a sua vida, procura descobrir o caminho da sua realização pessoal, decide e procura pôr em prática o seu projecto que outra coisa não é senão corresponder à vontade de Deus, deixando-se guiar por Ele.
Entrando para um convento no princípio do séc. XX, poderá ser um exemplo para os jovens do séc. XXI?
Sim, sem dúvida. Todos os santos são exemplos e modelos de vida que nos estimulam a sermos mais santos, isto é, mais pessoas. E a santidade tem a marca da actualidade, porque é um dom divino.
Isabel, enquanto carmelita descalça, pode ser um exemplo para os jovens do séc. XXI, pela sua coragem e determinação. Ela não hesitou em abandonar a vida confortável, o brilho e o glamour a que estava habituada, para realizar a sua vocação. Foi assim que ela foi feliz e se realizou, apesar do sofrimento que as renúncias da vida claustral de então implicavam. Neste sentido, ela é um exemplo para os jovens de hoje, para que, nesta sociedade de facilitismo em que vivemos, não se deixem dominar pelo hedonismo pós-moderno e sejam capazes de procurar as razões profundas do seu viver, se abram à graça de Deus e ao projecto que Ele tem para cada um, seja na vida religiosa ou na vida laical, pois só assim poderão experimentar a verdadeira felicidade. O Homem só se realiza enquanto Homem na medida em que se abre a Deus e responde com a sua vida à Sua Revelação.
O que teria ela a dizer aos jovens de hoje? Que episódios da sua vida será bom conhecer?
A vida de Isabel e os seus escritos são de uma riqueza inesgotável. Vale a pena conhecê-la e lê-la. Ela é uma jovem, com quem os jovens se podem identificar. Bonita, elegante, bem vestida, desportista, artista, fascinada por Deus, carmelita e santa.
Aos jovens de hoje Isabel repete aquilo que foi a sua vida e a sua experiência: temos o céu ao nosso alcance, porque o céu é Deus e Deus está na nossa alma. Aqui encontramos a felicidade. Para isso, não é necessário abdicar de nada e ao mesmo tempo é necessário abdicar de tudo. Os jovens podem viver a alegria e o entusiasmo característicos da sua idade, vestirem-se segundo a moda e frequentar festas, mas devem ser capazes de distinguir o essencial do acessório, não se deixarem escravizar por nada disto, mas serem livres.
A verdadeira liberdade implica renúncias, sobretudo ao egoísmo. Assim, é possível aos jovens de hoje fazer a mesma experiência de felicidade de Isabel. Não é necessário para isso que todos vão para os conventos, embora esta possibilidade também deva ser tida em conta pelos jovens no seu processo de amadurecimento pessoal e vocacional; mas o importante é abrir-se a Deus e aos outros.
É difícil indicar alguns episódios da vida de Isabel. É bom conhecer toda a sua vida. A mim toca-me particularmente a sua vida antes de entrar no Carmelo, pois antes de entrar no Convento ela já era carmelita. No meio do mundo, nas suas mais variadas ocupações, ela viveu mergulhada em Deus como verdadeira contemplativa. Isto a mim fascinou-me, provocou-me e interpelou-me, desde a minha adolescência, a tentar fazer a mesma experiência.
Para mim, enquanto leigo, carmelita e jovem, Isabel da Trindade é uma mestra de vida. E a minha experiência e aproximação de Isabel poderá igualmente ser a de muitos jovens. Que cada um possa descobrir a frescura do saboroso amor de Deus com a ajuda da Beata Isabel da Trindade.
