Reflexão Acontece que Jesus também disse: quem quiser ser mesmo importante deve, sem hipocrisia, servir os outros (Mc. 10,42-45).
No falar corrente, uma pessoa é «importante» quando precisamos dela para que o plano comum tenha sucesso. Não a podemos obrigar a pensar e a agir só como pensamos e fazemos: deixaria de nos prestar o serviço para que vinha habilitada e nós continuaríamos a marcar passo com o mesmo automatismo e vozes de comando que «estão sempre certos».
Não é errado afirmar que muita gente e muitas instituições têm medo, quando aparece «alguém que serve» – no sentido de alguém que presta, alguém que dá… não vá este alguém fazer sombra! Ou não vá inquietar a consciência, ao lembrar que importa «servir» e não «ser senhores»!
Só os amigos é que não enganam – ou não são amigos. Os amigos sabem quando dar, como dar e quanto dar. Esta sabedoria adquire-se «ouvindo e questionando» (Lc. 2,46); e assim nos tornamos aptos para colaborar num projecto comum. Quando Jesus sublinha que «o seu» mandamento é a sabedoria do amor entre nós, logo acrescenta que, para ele, os discípulos são «amigos» – pois «os servos não estão ao corrente do que faz o seu senhor» (Jo. 15,9-17).
Jesus foi um «líder». Mas quais serão as características fundamentais de um líder? Sensibilidade e dedicação aos problemas dos outros e ser deles porta-voz? Tratar os outros como iguais e por igual? Intuição para captar consensos? Ser reconhecido por ter dons especiais talvez acima do normal – coragem, perseverança, intuição, pragmatismo, ciência, sabedoria…?
Porém, o melhor líder pode cair na perversão: ser excelente porta-voz – mas dos interesses próprios; gerar consenso – porque o impõe; ter muitos seguidores – porque os compra; ser bom estratega – para manter nos outros a ilusão de possuir talentos especiais e fazer-se reconhecer como o herói, o grande salvador, o orquestrador imbatível.
Mateus, o evangelista atento à organização da novíssima comunidade cristã, termina o seu evangelho atribuindo a Jesus ressuscitado uma solene declaração: «Foi-me dado todo o poder no céu e na terra» (28, 18). E desafia-nos a partilhar desse poder unificador e harmonizador da dimensão temporal e eterna da vida («assim na terra como no céu»).
O vocabulário original dos evangelistas para designar este poder abarca os sentidos de força do espírito, força de crescimento, força de imposição, força da pessoa no seu todo. Compete a todos os cristãos, à medida do jeito de viver de cada qual, ver por dentro e viver o que são estes conceitos.
Etimologicamente, «poder» tem o sentido de domínio eficaz, se necessário pela coerção. Porém, Jesus elimina qualquer tipo de opressão: convida-nos, sim, com veemência, a ir ao encontro dos outros. S. Paulo, particularmente na 1ª carta aos Coríntios (12-14), marca bem que nenhum dos nossos talentos é eficaz se nos esquecemos de, acima de tudo, gerar e fortalecer a alegria (em grego, «alegria», «carisma» e «caridade» têm o mesmo radical). Só assim garantimos a gestão do bem-estar temporal e eterno. Por isso, «autoridade» (mesma etimologia de aumentar) é preferível a «poder». No tecido social, este aumento só é possível se todos colaboramos, como um corpo em que ninguém for considerado inútil. De outra forma, o corpo fica amputado (Rom. 12,3-8; 1Cor. 12,12-13). «Há diversos modos de agir, mas é Deus que realiza tudo em todos». Porém, esta «joint venture» com Deus só é genuína, se gerar «proveito comum» (1Cor. 12,6-7; 14,12.26); e só é eficaz, se procurarmos a excelência no «top» dos dons – sem o qual os outros pouco valem: a força indestrutível do amor (1Cor. 13).
Todas as formas exteriores de autoridade estão sujeitas à perversão – quando não assentes na dimensão interior. Só a interioridade é que vence as vicissitudes do tempo, as desilusões e os retrocessos da História e persevera na luta pela dignidade da vida humana; permite-nos viver, em grupo, a força de Deus, aprendendo a «capitalizar a energia divina» e a organizarmo-nos para bem guardar este «capital».
Sem estes cuidados, os «poderosos» nas organizações religiosas (qualquer um de nós o pode querer ser…) correm o risco de se preocupar com uma certa realização huma-na da fé e não com a fé na sua interioridade. Descuidando a interioridade, até os amigos passam a meros servos, e o servilismo substitui a colaboração. Só os amigos é que compartilham da «autoridade» de Deus.
Manuel Alte da Veiga
Professor Universitário
