Jaime de Magalhães Lima foi um aveirense notável, de saber multifacetado, que deixou marcas em áreas muito diversas, desde a política autárquica à escrita. No entanto, as suas facetas de vegetariano e de caminheiro (pedestrianista) são pouco conhecidas do grande público. Textos de Cardoso Ferreira
Vegetariano convicto
e “militante”
Há um século, no dia 14 de junho de 1912, Jaime de Magalhães Lima proferiu, no Ateneu Comercial do Porto, a conferência intitulada “O vegetarismo e a modalidade das raças”, na qual historiou a evolução do vegetarismo desde a antiguidade grega até ao início do século XX, referindo uma enorme plêiade de filósofos e outros pensadores que protagonizaram o pensamento vegetarista. Essa conferência foi publicada pela Sociedade Vegetariana, do Porto, no nono volume da Biblioteca Vegetariana.
Na sua conferência, o escritor e pensador aveirense começou por referir que o vegetarismo tem os seus pergaminhos. “Não é uma doutrina nascida de ontem. Tem títulos autênticos de nobreza prolongada durante gerações sem número, respeitada nas mais altas civilizações em cujas superiores aspirações colaborou, definindo-as eloquentemente pela voz das suas mais belas e autorizadas individualidades e corroborando-as ardentemente pelo exemplo dos seus mais devotados apóstolos”, escreveu, sublinhando, de seguida, que “o vegetarismo, tendo já os seus altares e o seu heróico punhado de fiéis em todos os países que atingiram a sensibilidade moral e religiosa, está infelizmente longe de ter penetrado na conceção vulgar das obrigações humanas, como é mister para a redenção de tantos e tão dolorosos males que nos afligem e perseguem por culpa da nossa cegueira e obscuridade”.
De seguida, Jaime de Magalhães Lima disse que recordar “as lições dos profetas e mestres é dever e é utilidade. E pena é que não possamos agora fazê-lo com a pausa que o encanto das suas palavras nos pede e que o proveito da própria educação imperiosamente nos aconselha. De Pitágoras a Shelley ou a Wagner ou a E. Réclus ou a Tolstoi que arautos não teve o vegetarismo, que divinos clamores não fez ouvir às multidões ignorantes da própria fortuna, escravas da primitiva animalidade ou ensandecidas e aviltadas em sórdidos prazeres!…”
Nessa visitação pelos filósofos e pensadores vegetarianos, Jaime de Magalhães Lima evocou Pitágoras, Ovídio, Platão, Séneca, Musónio Rufo, Plutarco, Porfírio da Alexandria e João Crisóstomo, todos eles na antiguidade. Do Renascimento ao século XX, citou nomes como Cornaro, Tomás Moore, Montaigne, Pedro Gassendi, Hecquet, Bernard de Mandeville, Wesley, Pope, Rousseau, Voltaire, Shelley, Lamartine, Michelet, Gleizès, Richard Wagner, E. Réclus, Leão Tolstoi e Henri David Thoreau.
O conferencista lembrou ainda que “os padres da igreja cristã primitiva, quando ela ainda se encontrava em toda a pureza, não se esqueceram, como não podiam esquecer-se, de verberar rigidamente as crueldades e a insânia do carnivorismo. E os filósofos estranhos ao cristianismo e até mesmo os que o combatiam mas que vinham repassados do platonismo helênico não foram menos ardentes na flagelação daquele vício a todos os respeitos mortal”.
Na parte final da sua conferência, Jaime de Magalhães Lima alertou para os perigos do alcoolismo, apresentando estatísticas relacionadas com o consumo em Aveiro, dizendo que “pelas estatísticas municipais corrigidas por quem por longa experiência conhece o movimento dos impostos, Aveiro com os seus 10.000 habitantes deverá ter consumido em 1911 (números redondos): 1.041.000 litros de vinho comum, 7.500 litros de vinhos licorosos e 11.000 litros de aguardente”.
“Hoje, como então, a carne e o vinho são companheiros e cúmplices nessa embriaguez do nosso sangue e da nossa alma que nos conduz aos infernos de todas as demências e abjeções”, concluiu Jaime de Magalhães Lima.
Pedestrianista…
antes da moda
do pedestrianismo
Mesmo tendo viajado pelo estrangeiro e “apesar de ter nascido na cidade e até de ter experimentado a força e a velocidade dos primeiros automóveis chegados à nossa região”, Jaime de Magalhães Lima “preferia as longas caminhadas a pé, onde podia contemplar a paisagem e encontrar-se com os homens simples dos campos e das serras”, escreveu Monsenhor Aníbal Ramos no prefácio do livro “Entre pastores e nas serras”, da autoria de Jaime de Magalhães Lima, reeditado pela Portucel em 1986.
Nesse livro, Jaime de Magalhães Lima relata as suas caminhadas pela serra do Caramulo, começando por escrever que “já não há caminhos, há transportes, qualquer coisa que se move na estrada mas parece desconhecê-la. Pelo menos, não deixa que os sentidos a conheçam. Viajar, nesta sujeição, não é calcar a terra, é repudiá-la”.
Nesse seu livro, o escritor proprietário da Quinta de S. Francisco, em Eixo, refere que “não havendo viajado pouco e servindo-me sem rebuço e amplamente dos engenhos de transporte modernos, tendo-os admirado como um ingénuo entusiasmo e juvenil insensatez, e até mesmo não havendo sido tão pouco curioso nem tão peco que resistisse à tentação pueril de governar automóveis no tempo em que essa aventura ainda era ousadia, cumprindo assim todo o protocolo das velocidades brutais que são a honra de semelhantes gentilezas, tive simultaneamente a fortuna, graças a Deus, de por igual e amiudadas vezes me tentar também com a experiência do superior contentamento da jornada singela dos antigos, por montes, vales e altas serranias sem outro recurso além do meu pobre corpo que nunca foi maravilha nem para feitos heróicos, e sem outra esperança de regalos além do abençoado prazer do esforço ao ar livre, coisa tão barata e sã como temida e aborrecida dos inválidos da civilização. Entre o governar do automóvel na carreira cega dos 80 quilómetros por hora e o modesto governar dos meus sapatos na assisada tardeza de 80 quilómetros por semana, entre uma vertigem e a contemplação pausada e calma de toda a beleza da terra, achei por fim, sem sombra de dúvida, que a vertigem era uma doença, um pesadelo, enquanto a contemplação me insinuava nas veias e no espírito um inconfundível filtro de vida”.
Mais de meia centena de obras publicadas
Jaime de Magalhães Lima nasceu no ano de 1859 e faleceu em 1936. Foi um aveirense que se interessou por uma enorme diversidade de áreas, da política à escrita, da filosofia ao pensamento religioso, da educação à ação social. A sua Quinta de S. Francisco, em Eixo, é uma referência da sua devoção a S. Francisco de Assis e do seu amor às árvores e à natureza.
Apesar de ter publicado mais de trinta livros e de dezena e meia de conferências que proferiu também terem sido editadas, as obras de Jaime Magalhães Lima estão praticamente esquecidas dos leitores aveirenses, ainda que o seu nome seja patrono de uma escola secundária em Esgueira e a sua casa, na Rua do Carmo, acolha atualmente a sede da Comunidade Intermunicipal da Região de Aveiro.
