Jesus ou Cristo?

A correria da vida que levamos conduz-nos, muitas vezes, a somarmos estereótipos de atuação, mesmo em relação à vida cristã. A rotina das rubricas litúrgicas, o subconsciente de fórmulas doutrinais, a estratificação dos dogmas facilmente nos fazem esquecer que o cerne da fé é um encontro com um acontecimento, com uma Pessoa.

Acontecimento e pessoa enquadram-nos dentro do espaço e do tempo, isto é, nas coordenadas da história. E Jesus, o Verbo eterno de Deus, fez-Se Homem e habitou entre nós; “aniquilou” a Sua divindade, escondendo-a no invólucro desta humanidade limitada que a todos nos caracteriza.

Os textos evangélicos apresentam este acontecimento perfeitamente inserido na sua época, no seu ambiente cultural, num espaço determinado, com múltiplas referências de pessoas e acontecimentos, que excluem qualquer hipótese de invenção ou imaginação.

Não deixam de ser relatos de fé os textos bíblicos. E a exaltação da condição única de Jesus como Messias de Deus, que supera o limite da natureza humana, a morte, desenvolve-se com tanto entusiasmo, anunciando-o como o Cristo glorioso, que a tentação de esquecer a Sua humanidade é um facto. Ainda que, curiosamente, dos primeiros relatos evangélicos a circular sejam os da paixão e morte de Jesus – referenciais claramente históricos e, na prática, nada “interessantes” para quem proclamava Cristo ressuscitado.

Algumas comunidades primitivas cederam à tentação de esquecer a condição humana de Jesus. A simplicidade do evangelho de Marcos atalha esta tentação, fazendo-nos baixar ao Homem de Nazaré, que passou fazendo o bem. Corroborado pelos outros evangelistas e mesmo textos extrabíblicos.

A obra de Dan Brown, o Código de da Vinci, gerou um movimento em busca de um Jesus “histórico” mas light, envolvido por uma vertente feminina da vida, movendo-se numa teia de mistérios… Mas “que não moleste, que não nos exija entrar em dimensões novas da vida (estamos bem como estamos!)”, despido do aspeto radical da Sua mensagem (anúncio do Reino, crítica social).

A cristologia construída ao longo de séculos afastou-nos do obreiro de Nazaré, do ousado “invasor” de Jerusalém, sem exército nem armas, que caminha firme para o “fracasso” do Calvário, convicto de que Deus chegará a instaurar o Seu Reino. Não será a possibilidade de ativação científica do ADN de Jesus, num laboratório de Nazaré, que fará voltar o mesmo Jesus, para completar a Sua obra e resolver os problemas graves do nosso tempo, a começar pelos da Sua pátria de nascimento.

A kenose (ocultamento, aniquilamento) do glorioso Cristo na caducidade do humilde galileu Jesus fecundou irreversivelmente a precaridade do género humano. A Sua superação dos limites espácio-temporais – a ressurreição – abriu definitivamente as portas para o crescimento do Reino. Todavia, importa voltar ao reconhecimento de Jesus de Nazaré, um acontecimento, uma Pessoa da nossa história, para perceber que viver a fé é viver como Ele viveu, é dar-se, sem medida, às causas a que Ele Se deu. Essa é a nova evangelização!