Jesus responde às perguntas fundamentais, mas nem sempre gostamos das respostas

Padre da Sociedade Missionária da Boa-Nova e professor de Filosofia na Universidade de Coimbra, Anselmo Borges esteve no Centro Universitário Fé e Cultura, na noite de 1 de Dezembro, a convite do Instituto Superior de Ciências Religiosas de Aveiro (ISCRA), para falar da “actualidade que tem hoje Jesus Cristo”. Nesta página resumem-se as principais ideias transmitidas pelo padre que também é conhecido por não temer polémicas quando se trata de exprimir o seu pensamento sobre a realidade da Igreja e da sociedade. Resumo de Jorge Pires Ferreira.

Jesus Cristo

Sou incapaz de me conceber sem Jesus Cristo. Faz parte da minha identidade narrativa, da minha história pessoal.

Pessoa e direitos

Enquanto na Antiguidade Grega a razão estava dentro do mundo, transcorria pelo mundo, para o cristianismo, a Razão, o Logos, encarnou. A Razão é pessoa. Isto levou ao reconhecimento da dignidade da pessoa humana e de todas as pessoas. Não é por acaso que os Direitos Humanos nascem no Ocidente.

Questões

Jesus Cristo só pode ser actual se responder às perguntas fundamentais: Eu sou quem? O quê? Quem nos dá a experiência da reconciliação, pois estamos cindidos? Sozinho, é insuportável; com os outros, é o que se sabe. Quem infunde esperança no futuro? Afinal, caminhamos para onde?

“Desangelho”

Desgraçadamente, fez-se do Evangelho um “desangelho”, como Nietzsche dizia. O que foi feito da Boa Nova, que tão pouca gente quer? A Boa Nova é felicitante. Mas por vezes foi votada contra a vida.

Critério supremo

Segundo o Evangelho, o ser humano deve ocupar o centro de toda a actividade humana, incluindo a política e economia. “Não é o homem para o sábado, mas o sábado para o homem”, dizia Jesus. Este é o critério de todas as leis, humanas e divinas. Veja-se o capítulo 25 de Mateus, em que o primeiro aspecto da avaliação de Deus é “dar de comer”. Quando se trata de saber qual a verdade da história (o “juízo final”), as perguntas de Deus não são de ordem religiosa, mas sobre coisas do mundo. O critério da salvação é a humanitariedade, que vê o ser humano para lá da cor, classe, raça, sexo, culto…

Jesus e as finanças

O que diria hoje Jesus à economia e finanças? Exigiria uma nova ordem económica e mundial com base na justiça, contra o neoliberalismo que aumenta a desigualdade e a exclusão. Jesus não é contra o dinheiro e o capital, mas é contra que se faça disso o absoluto de alguns contra o interesse geral das pessoas. Não podemos aceitar as leis do mercado como uma nova Providência divina. Temos de congregar a liberdade e a justiça. Falta encontrar um regime que o faça com acerto.

…e a política

Na política, além de ter deixado o princípio decisivo de dar a Deus o que é de Deus e a César o que é de César, Jesus não excluiu os estrangeiros. Curou o servo do centurião romano e mulher siro-fenícia. Exortou a que o judeu fizesse uma segunda milha depois daquela que, por lei, era obrigado a fazer carregando os bens de um romano. Isto é paradoxal. Talvez o romano viesse a conversar com o judeu. Talvez acabassem por beber os dois um copo desanuviante. A solução dos conflitos é possível.

…e as mulheres

Em todas as religiões as mulheres são secundarizadas. Com Jesus foi diferente. Estavam mulheres na Última Ceia, mas habituaram-nos a pensar que não estavam. Jesus acabou com a questão da impureza ritual da mulher menstruada. Maria Madalena foi o “apóstolo dos apóstolos”, na expressão de Santo Agostinho. Foi a primeira a saber da ressurreição. No episódio de Marta e Maria, a mensagem é: “Marta, tu também podes ser discípulo”. A mulher não é para estar na cozinha. Qualquer discriminação da mulher na sociedade e na Igreja está em desacordo com o evangelho.

…e a sexualidade

O Evangelho ignora as questões da sexualidade e deixa as pessoas na sua liberdade. Jesus não esperaria tanto tempo para dizer que nas devidas circunstâncias o preservativo não pode mas deve ser usado. Quem não é fiel pode e deve ao menos preservar a vida. Porquê tanta adversidade aos anticonceptivos ditos artificiais? Se fosse confrontado com estas questões, Jesus diria: “Vós sois livres, responsáveis. Tomai conta da vossa vida. Procurai o entendimento mútuo através da expressão física do amor”. Jesus de certeza que não negaria a comunhão aos recasados. Não é razoável pedir que tenham toda a vida religiosa normal e negar-lhes a comunhão.

O celibato e a não ordenação de mulheres não têm fundamento evangélico. Não se pode impor por lei aquilo que Jesus deixou à liberdade. Outra coisa é a entrega, dentro e fora da Igreja, a uma causa cultural, social, de investigação científica, à música… Implica a liberdade. “Quem tiver ouvidos, ouça”.

…e a natureza

Jesus tinha uma boa relação com a natureza, patente nas parábolas e observações (como a da beleza dos lírios do campo), onde podemos fundamentar um modo de estar mais ecológico. Temos de abandonar a febre do consumo, de esgotar tudo até ao limite.

Morte anunciada

Não gostaram da nova imagem de ser humano preconizada por Jesus, porque pôs muitos interesses em questão, e isso gerou um conflito mortal. O Deus dos últimos entrou em conflito com o Deus do sistema do templo. A mensagem de Jesus abalou a raiz do sistema poderoso ao serviço do templo e do império. A consequência foi a morte.

A concepção da morte vicária de Jesus, segundo a qual Deus precisava da morte do Filho para que a sua ira fosse aplacada, é bárbara. Afirmações destas só fazem ateus. Deus é amor. Deus não precisa de sacrifícios. O sacrifício só faz sentido do ponto de vista humano: para aprofundar a vida, porque nada de grandioso e valioso se faz sem sacrifício.

Mais profecia, menos culto

Precisamos de uma Igreja mais perto de Deus e menos da instituição, com menos pompa e mais simplicidade e participação, com mais profecia e menos culto. Há dois problemas que a Igreja tem de resolver mais rapidamente do que “atrasadamente”: a democracia no interior da Igreja e a questão das mulheres.

No Vaticano, hoje, não deixariam Jesus entrar. Como foi possível que a mensagem de Jesus tivesse desembocado num Papa chefe de Estado? Numa cúria imperial? Agora, já que existe, que isso seja aproveitado para o bem da humanidade, nomeadamente através da representação do Vaticano em instâncias internacionais.

A misericórdia vale mais

do que o sacrifício

Pela Bíblia perpassam duas linhas, uma sacerdotal, ligada ao desenvolvimento do culto e aos sacrifícios, que é a religião que condena Jesus à morte, e outra profética. Jesus aparece na linha profética, dizendo: “Ide e aprendei: «Eu não quero sacrifícios, mas misericórdia»”. A segunda frase é posta como afirmação de Deus.

Liberdade na instituição

Faço parte da instituição. Mas a única maneira de se estar em qualquer instituição é de forma livre, crítica, responsável e leal. Onde está o espírito de Cristo está o espírito de liberdade. Dissentir? Sim, mas com consideração e respeito.