Apesar das diferentes perspetivas e interpretações, sabemos muito sobre Jesus, com alguma garantia, defendeu Xabier Pikaza, na apresentação de “Quem é / Quem foi Jesus”, que decorreu na segunda-feira à noite no salão do Seminário de Aveiro, perante uma assembleia muito composta e interessada. O teólogo espanhol enumerou pontos que a atual historiografia tem como assentes, independentemente da fé ou descrença dos investigadores. Alguns exemplos: Jesus nasceu por volta do ano 6 a.C. (porque quem se lembrou de datar o tempo a partir do nascimento de Jesus enganou-se nas contas); começou a trabalhar aos 12 anos como carpinteiro ou mesmo canteiro; foi seguidor de João Baptista até certa altura; tornou-se profeta e assumiu como missão falar em nome de Deus; foi um homem sábio que inventava parábolas e sabia falar com as crianças, as mulheres, pessoas de todas as condições; gostava de comer e beber, mas “partilhando a mesa”, queria criar uma “humanidade sem dinheiro”; pensava que o Reino de Deus estava a chegar na Galileia e a seguir em Jerusalém; morreu na cruz, mas o seu dinamismo não parou.
No momento das perguntas e respostas, a assembleia provocou o teólogo: Jesus seria aprovado num exame de cristologia? O que diria no Vaticano? Hoje seria sacerdote? O que pensava das mulheres? E ele respondeu com serenidade e perspicácia. “Seria aprovado, se estudasse, porque os conceitos mentais do seu tempo, ao longo da história e de hoje são muito diferentes”. “Com certeza que também há algo de Jesus no Vaticano e precisamos do primado da unidade [o Papa]”, ainda que as condições possam ser discutidas. “Os sacerdotes são as únicas figuras que não se convertem no Novo Testamento, mas em Hebreus é dito que Jesus é sacerdote, no sentido em que se entrega pelos outros, «apresentou-se diante de Deus»”. De resto, o sacerdócio ministerial – e a separação leigos/ministros – é algo muito posterior a Jesus (séc. II-III). “Jesus não disse nada sobre as mulheres, porque o que disse vale tanto para homens como para mulheres”, mas lidou com elas com grande proximidade e escolheu-as para testemunhas. “O projeto com os 12 apóstolos fracassou e foram elas as primeiras a falar da ressurreição”.
No encontro ficou patente que a linguagem filosófica sobre Jesus no Credo [“gerado, não criado; consubstancial ao Pai…”], própria da cultura helenística dos primeiros séculos, e até sobre a ressurreição, pouco diz às pessoas de hoje. Precisamos de novas linguagens, novos conceitos para exprimir a fé de hoje no Filho de Deus. “Também por aqui passa a nova evangelização”, referiu Anselmo Borges, coordenador da obra que nos próximos dias vai continuar a ser apresentada em diversos pontos do país.
J.P.F.
