Aveirenses Notáveis Representou toda a “galeria” de figuras tradicionais aveirenses em barro, pintou e esculpiu. Morreu no dia 27 de agosto, deixando um legado artístico impar.
José (Zé) Augusto foi o artista contemporâneo a quem melhor assenta o título de “o barrista de Aveiro”, não só pela quantidade de figuras aveirenses que imortalizou em barro, mas também pelo trabalho de investigação e procura das “simbologias” que melhor identificassem e diferenciassem essas figuras (religiosas ou populares) da cidade e da região de Aveiro.
Foram dezenas de “bonecos” em barro que José Augusto concebeu, representando praticamente toda a “galeria” de figuras tradicionais aveirenses, vestidos com os respetivos trajes típicos: marnoto, peixeira, homem do ramo, mulher do ramo, tricana, pescador, entre muitas outras figuras, com destaque ainda para o “cagaréu” e a “cagaréu”, símbolos da freguesia da Vera Cruz, terra natal do artista, a que posteriormente juntou o “ceboleiro” e a “ceboleira”, simbolizando os habitantes da freguesia da Glória.
A par dessas figuras populares, José Augusto também modelou inúmeras imagens religiosas, de que são exemplo os “santos” mais populares das gentes aveirenses: Santa Joana e São Gonçalinho. Também de cariz religioso, foram os inúmeros presépios que criou, peças que preenchem coleções um pouco por toda a região, não só as executadas em barro vermelho, mas também as coloridas e vidradas, num constante trabalho de renovação porque todos os anos o artista surgia com novos presépios.
Muitas das figuras que José Augusto criou em barro também as pintou em pratos decorativos e em painéis artísticos, demonstrando um grande à-vontade em diversas áreas da cerâmica e da azulejaria. Tanto nos pratos decorativos, como nos painéis de azulejos, o artista concebeu obras de pendor popular e trabalhos bastante mais eruditos e elaborados, indo desde o estilo clássico ao contemporâneo, e do figurativo ao abstrato, painéis que se encontram um pouco por toda a cidade, em locais públicos, em igrejas (em colaboração com Jeremias Bandarra) ou em fachadas de edifícios particulares.
Para além de ceramista e barrista, José Augusto foi também um artista plástico autor de uma diversificada obra de pintura, onde percorreu vários estilos e técnicas, numa constante busca do belo e da perfeição. Em 2006, o artista enveredou também pela escultura, designadamente de bustos. No início deste ano, José Augusto assinalou os seus 50 anos de carreira artística com uma grande exposição de pintura, azulejaria e cerâmica, realizada na Galeria Municipal Morgados da Pedricosa, numa iniciativa do Aveiro Arte, grupo de artistas aveirenses que há muito integrava.
De realçar que apesar de José Augusto ser um verdadeiro artista plástico, como há poucos em Aveiro, nunca deixou de se assumir como um artesão, tendo sido um dos fundadores da FARAV (Feira de Artesanato de Aveiro). Era também presença habitual nas inaugurações de exposições artísticas e em outros eventos culturais realizados em Aveiro.
50 anos de vida artística
Foi a partir de 1978 que José Augusto se dedicou exclusivamente ao artesanato e às artes plásticas, ainda que tenha iniciado a sua ligação à cerâmica artística no começo da década anterior (1960 / 70).
A sua entrada no mundo da cerâmica ocorreu quando tinha 16 anos de idade, altura em que entrou para as Faianças de São Roque (Aveiro), como oleiro e cerâmico. Mais tarde, transferiu-se para a Artibus (também em Aveiro), como oleiro. Nessa época, após o horário laboral, José Augusto, estudava desenho e pintura cerâmica na Escola Industrial de Aveiro.
No entanto, foi em 1959, quando se transferiu para a Fábrica Aleluia (Aveiro), que José Augusto fortaleceu ainda mais a sua veia de modelador ceramista e de pintor de painéis. Como o próprio afirmou (numa das muitas entrevistas que concedeu a Cardoso Ferreira), foi “na Fábrica Aleluia que comecei a fazer os primeiros ensaios como artesão porque tinha a liberdade de cozer na fábrica as peças que fazia em casa depois do trabalho. Foi assim que comecei a fazer artesanato, mas era ainda um extra que eu tinha para além do trabalho da fábrica”.
Em 1969, José Augusto montou a sua própria oficina, criando um diversificado número de “bonecos” representativos das figuras tradicionais de Aveiro e das profissões típicas da região, a que juntou também as imagens de “santos”. A par dos “bonecos”, também saíram dessa oficina um sem número de pratos decorativos e alguns painéis de azulejos, bem como algumas telas. Mas, em 1973, José Augusto optou por mudar radicalmente a sua vida, deixando Aveiro ruma a Angola, onde montou uma oficina de artesanato cerâmico que terminou no ano seguinte, com o conturbado processo de descolonização angolano. Por isso, em 1975, José Augusto regressou definitivamente a Aveiro, para não mais largar a sua oficina de artesanato, situada no n.º 404 da Rua de S. Bernardo, na freguesia de S. Bernardo, mesmo às portas de Aveiro.
Os “bonecos” que José Augusto fazia tanto podiam ser em série (por molde) ou manualmente (peças únicas). No entanto, o artista sublinhou que todos eles eram pintados à mão, pelo que nunca houve dois completamente iguais, após o que eram vidrados. Só as peças em barro vermelho não eram pintadas e vidradas.
O artista explicou que os pratos, as jarras e outras louças são feitas por fundição, processo que também aplicava aos bonecos que fazia em série (ou de repetição). “As peças que faço manualmente são pelo processo de estendimento de lastra, ou seja, o barro é estendido em folha e depois fazemos as dobragens para fazer as figuras”, relatou.
Cardoso Ferreira
Um “cagaréu” que se mudou
para S. Bernardo
José Augusto Ferreira dos Santos nasceu no ano de 1930, na típica zona da Beira-Mar, em Aveiro, numa casa na antiga Rua do Vento, hoje denominada Rua António Cristo, no seio de uma família com dificuldades económicas, vivendo a sua infância como os seus amigos “cagaréus”, entre os quais o artista cerâmico João Mateus, célebre pelas pinturas em conchas marinhas.
Com apenas 13 anos de idade, foi trabalhar como aprendiz de polidor de móveis. Ainda na área da carpintaria e marcenaria, José Augusto mudou-se para uma oficina de fazer baús de madeira, artigo que então era considerado um luxo. Aos 16 anos, deixou as madeiras para entrar no ramo da olaria e da cerâmica, atividade que nunca mais largou, trabalhando praticamente até ao dia da sua morte, deixando ainda muitos projetos artísticos por terminar, conforme nos confidenciou recentemente, lamentando-se, na altura, por um problema de visão que o impossibilitou temporariamente de concretizar trabalhos que tinha em mente.
No dia 27 de agosto de 2012, José Augusto deixou o mundo dos vivos, mas onde a sua obra artística permanecerá.
