1. Nestas últimas semanas três assuntos internacionais da realpolitik têm passado por Portugal, seja enquanto país soberano, seja enquanto assumindo a Presidência da União Europeia: a questão da independência do Kosovo, a visita do Dalai Lama e a presença ou não do Zimbabué na cimeira Europa África.
Começando pelo Kosovo, estamos a falar de um território com 11.000 km 2 e com pouco mais de 2 milhões de habitantes, de maioria albanesa, sem economia minimamente sustentável e onde a taxa de desemprego atinge valores superiores a 60%!
Mesmo tendo em conta a diferencialidade étnica deste pequeno território, a obsessão da União Europeia e da América pela sua independência é difícil de compreender.
Pergunto: tornar-se independente por ter uma etnia albanesa e muçulmana predominante? Se sim, então porque não reclama a comunidade internacional a independência da Chechénia face à Rússia ou a fragmentação da Bósnia entre muçulmanos, sérvios e croatas ou, voltando à Sérvia, a independência da província autónoma de Vojvodina onde a etnia húngara tem um acentuado peso?
A imposição feita à Sérvia do tipo “o vosso país entra na UE se aceitarem a independência do Kosovo” ou as declarações de Condoleezza Rice (“de uma forma ou outra, o Kosovo será independente”) são impróprias de uma cultura democrática ocidental, traduzindo-se mesmo numa “chantagem indecente”, para citar as palavras do Primeiro-Ministro sérvio Kostunica.
Utilizando lógica idêntica, é caso para se perguntar, por exemplo, se a União teria alguma vez tido o mesmo critério no que se refere à Espanha quanto a uma hipotética independência do País Basco? E outros exemplos se poderiam dar nesta Europa de contradições… em que ser pequeno ou ser grande faz toda a diferença!
Ou porquê o silêncio total sobre o Tibete, este indubitavelmente um caso de clara diferenciação nacional em relação ao potentado da China?
2. Falando na China, temos a visita do Dalai Lama a Portugal que não será recebido pelo Governo, “como é óbvio” para citar a “justificação” seráfica do Ministro dos Negócios Estrangeiros.
Tenzin Gyatso, que visita Portugal pela segunda vez, é o décimo quarto Dalai Lama, Nobel da Paz, guia espiritual do budismo tibetano e chefe do povo tibetano.
Uma nação tibetana que tem sido alvo das mais hediondas expressões do mal, parcialmente dizimada no silêncio criminoso de quem é incapaz de respeitar o direito à diferença, o direito à vida, ao património espiritual e cultural e agrícola, naquele singular tecto do mundo.
Como há seis anos, o Estado Português hipocritamente põe-se de lado nesta visita de um homem bom, compassivo, pacífico, delicado, culto, sereno, estudioso, defensor de uma purificação espiritual e ética.
Um homem que veio em nome da mais honesta ética dos direitos humanos.
Nem ao menos o exemplo de outros países democráticos que já receberam o líder tibetano comoveu a nossa doméstica diplomacia, mais absorvida agora em anunciar (pela boca do Ministro da Economia) Portugal como o “eldorado” dos baixos salários para atrair capitais chineses!
Dir-se-á, pragmaticamente, que é uma questão de jogos diplomáticos para não ferir a susceptibilidade da China. Então e quando se recebeu Yasser Arafat, de pistola na anca, muito antes de se ter criado a Autoridade palestiniana? Aí já não haveria diplomacia a preservar? E não é Portugal o mesmo Estado que bem trabalhou na diplomacia pela libertação de Timor do invasor indonésio, mas que sempre fez vista grossa a uma invasão destrutiva de um povo e da nação tibetana? E tudo isto agora que até já nem estamos em Macau, de onde, aliás, saímos sem brilho, e sem respeito pelos novos senhores dos valores históricos que lá deixámos.
Aquando da decisão de atribuir os Jogos Olímpicos de 2008 à China, não ouvi um sussurro oficial sequer da Europa, sempre tão solícita quando se fala de violação dos mais elementares direitos humanos.
A China vai ter os seus Jogos Olímpicos, expoente desportivo dos valores ideais de um são comportamento humano! Grande força que os novos poderes da globalização têm para serenar as consciências monetárias dos senhores do mundo que, altaneiros, não perdem pitada para chorar lágrimas de crocodilo pelos deserdados, pobres e humilhados!
Fico estupefacto com o silêncio ensurdecedor dos Estados, dos analistas, das organizações não governamentais, perante as “minudências” atentatórias dos direitos mais elementares que se continuam a passar na China, onde se batem todos os recordes de condenações arbitrárias à morte.
3. Por fim, Robert Mugabe, ditador implacável de um país africano que vem destruindo, chacinando populações, não respeitando os mais elementares direitos humanos. Apesar da posição categórica do Reino Unido, a Presidência Portuguesa tudo quer fazer para que “a normalidade diplomática” funcione e o homem seja recebido em Lisboa com o estatuto de chefe de Estado democrático. Sempre em nome do mais nobre pragmatismo, claro está!
Assim vai o mundo. Cheio de contradições. Com pesos diferentes para questões essenciais da dignidade humana, como se as ideologias pudessem justificar ali o que é condenável acolá!
Todos sabemos que a hipocrisia e a incoerência são traços permanentes da política internacional. É para isso que, em parte, existe a chamada diplomacia… Mas será também para esta maneira de ver o mundo que a mesma política enaltece até à náusea a necessidade de um Tratado Europeu?
