Poço de Jacob – 58
Poucos a conhecem. Nem se fala dela. Assim foi a sua vida e parece que será para todo o sempre. Há pessoas maravilhosas no nosso mundo que só não são esquecidas por Deus. E isto lhes basta. Vemos, e já Jesus falava desses, que muitos querem aparecer. Não se cumpre nem se entende que a mão esquerda não deve saber o que faz a direita. E isso porque não se dá de coração desapegado, na alegria tão elogiada pelo evangelho.
Surpreende-me a Samaritana. Não se gabou de ter sido uma privilegiada com tempo de antena seleccionado pelo próprio Jesus. A razão de chamar os outros para irem a Jesus foi por Ele ter dito toda a sujidade da vida dela. “Vinde ver um homem que disse tudo quanto eu fiz…” Bem sabiam as pessoas o que ela fazia. Mas, um homem ter dito que ela era pecadora, quando os considerados justos não se aproximavam dela para não contrair impureza ritual…. Por aí se vê a autenticidade da vida dela. Quem é que começa uma conferência dizendo que não vale nada, em vez de permitir que se citem os currículos da sua vida que obrigam as pessoas a tratarem por doutores os conferencistas? Bem, não podemos esquecer Madre Teresa de Calcutá. Ao fim e ao cabo, o que vale um homem com a sua sabedoria?
Leonie era uma das filhas de Zelie e de Loius Martin, hoje beatos e pais de santa Teresinha do Menino Jesus. A sua irmã mais velha, pois Teresinha era a mais nova dos filhos do santo casal, Leonie, era dotada de um temperamento revoltoso por natureza, inconstante, ansiosa, com alguns traumas, que a tornavam um fonte de preocupações para a sua mãe, como se pode ler nas cartas de Zelie, já publicadas. Enquanto as irmãs eram dotadas de muitas capacidades intelectuais e de originalidade no campo das artes, Leonie quase que se poderia considerar a cozinheira da família, relegada a não ter grandes atributos. Além do mais, só ela não foi para o Carmelo de Lisieux. E tentou entrar quatro vezes na Visitação de Caen, onde estava sua tia materna, e só lá ficou na quarta, bem depois da morte de Teresinha e como promessa desta, que no céu ia tratar da vocação da irmã instável. Era, de facto, o patinho feio… e destes não reza a história, que valoriza os que podem aparecer como modelo, como heróis.
Leonie só sabia de uma coisa: Nada sei e nada sou. Assim viveu, no escondido de uma vida religiosa encantadora que nos faz mergulhar, aos que nos interessamos por ela, no belíssimo e tão necessário caminho da humildade. Uma vez, porteira do convento, um sacerdote foi procurá-la, não por ela, mas por ser a irmã da maior santa dos tempos modernos. Ao ser interpelada pelo sacerdote, Leonie disse que Leonie estava ocupada. Quando posso falar com ela? Leonie respondeu: Não se preocupe, pois se a não vir, não perde grande coisa. O padre ficou escandalizado com a ousadia da irmã e ao queixar-se à superiora soube que tinha falado com a própria Leonie e admirou-se pela humildade.
Quando, numa solene celebração em Lisieux, o arcebispo agradeceu às irmãs carmelitas de Teresinha a irmã santa que deram à Igreja, Leonie ouvia no convento o nome das irmãs carmelitas – e não ouviu o seu. Como se não existisse. Com pena, as irmãs visitandinas procuraram consolá-la e ela respondeu: A minha felicidade está em que Teresa cresça e eu diminua. E quando a sua irmã Paulina disse que construíram debaixo do túmulo de Teresinha um lugar para serem todas sepultadas com ela, Leonie respondeu: Vim para ser visitandina, vivo como visitandina e quero morrer e ficar sepultada no meu convento de visitandina. E ali está. No chão de uma cripta, sem visitas senão dos poucos que a conhecem… por ser irmã de Teresinha, apenas.
Emocionei-me quando lá entrei e ao ler o seu pequeno livro, ali mesmo. Senti que o que torna Teresinha gigante foi não querer ser senão só de Deus e viver apagada e esquecida no mundo. Que os que mais produzem na Igreja não são só os que estão no campo de frente a dar a cara, por vezes na busca de louvores e reconhecimentos, mas aqueles que, movidos pelo amor, em tantos conventos por este mundo fora e em tantos lares de família, vivem só para servir, na certeza de que este nada publicitado contributo pode mudar a face da terra, como Jesus nos trinta anos da sua vida escondida, ou Maria, que nunca quis ser mais do que a humilde escrava do Senhor.
P.e Vitor Espadilha
