Um pouco por todo o mundo há perseguidos e perseguidores por motivos religiosos ou contra a religião. A Ásia é o continente com mais tensões religiosas, não necessariamente relacionadas com o cristianismo. No Irão, no Paquistão e na Arábia Saudita, a perseguição aos “infiéis” atingiu níveis de emergência real. A prisão e a tortura são infligidas aos que transgridem a Lei Corânica. No Iraque, além dos atentados de sunitas contra xiitas, há ameaças a comunidades cristãs. No Sri Lanka e na Índia, as minorias cristãs são alvo dos extremistas budistas e hindus, que utilizam leis anti-conversão para prevenir toda a actividade missionária e que recorrem habitualmente à violência. No Estado indiano de Guajarat, a lei que restringe as conversões estabelece uma pena de três anos de prisão e uma multa de 50 mil rupias para quem encorajar a conversão ou mudar de um credo para outro. Na Coreia do Norte, 300 mil cristãos desapareceram sem deixar rasto nos últimos 50 anos. Na China, os cristãos, os budistas e os membros da seita Falun Gong são presos e torturados em campos, sem que contra eles tenha sido proferida qualquer acusação.
Estes e outros dados surgem no “Relatório 2005 – Sobre a liberdade religiosa no mundo”, que é hoje apresentado em Lisboa, numa sessão presidida por Marcelo Rebelo de Sousa. O Relatório é da responsabilidade da Fundação Ajuda à Igreja que Sofre e baseia-se em estudos e análises de especialistas em assuntos religiosos, bem como na informação recolhida junto de agências de notícias e das organizações internacionais de defesa dos direitos humanos. Tanto no mundo religioso como no mundo laico, o Relatório da FAIS é considerado uma das fontes mais credíveis nesta matéria.
Tensões na Europa
No continente europeu continuam a persistir problemas de liberdade religiosa. O Relatório refere que a força propulsora do ateísmo não se esgotou, mesmo quinze anos após a queda do império soviético. Entre vários exemplos existe o caso da Bielorússia, onde o controlo estrito do Estado sobre qualquer expressão de culto tende a sufocar as crenças religiosas dos povos. Na Rússia, prevalecem obstáculos burocráticos, apesar dos avanços ecuménicos entre ortodoxos e católicos. Os ecos da guerra que desmembraram a Jugoslávia em meados dos anos 90 ainda estão presentes na Bósnia Herzegovina, Sérvia e Montenegro e no Kosovo, causando igualmente tensões entre cristãos e muçulmanos.
Mais perto de nós, na França, uma vaga de secularismo levou à aprovação e implementação de uma lei que proíbe a utilização de símbolos religiosos em escolas, enquanto na Alemanha, o mesmo objectivo é procurado com diversas medidas locais. Concebidas para se contrapor à emergência do extremismo islâmico, estas medidas parecem não ter um efeito real, e o mesmo se aplica a outros modelos de coexistância baseado em políticas multi-culturais na Holanda e no Reino Unidos, onde episódios recorrentes de violência envolvendo as comunidade muçulmanas trazem este problema à atenção da opinião pública.
FAIS – Há dez anos em POrtugal
Fundada em 1947 pelo padre holandês Werenfried van Straaten, inspirado na mensagem de Fátima, a Fundação Ajuda à Igreja que Sofre (FAIS) é uma organização dependente da Santa Sé, tendo por objectivo apoiar projectos de cunho pastoral em países onde a Igreja Católica está em dificuldades.
No início, o trabalho da Ajuda à Igreja que Sofre consistia apenas em auxiliar os refugiados da Alemanha de Leste que fugiam da ocupação comunista, mas rapidamente se espalhou pelos campos de refugiados da Europa e da Ásia, pelas Repúblicas Populares comunistas, pela América Latina e pela África. Actualmente, a FAIS responde a dificuldades provocadas por totalitarismos de esquerda ou de direita, fanatismo religioso, multiplicação de seitas, materialismo, falta de sacerdotes, etc. A sua missão consiste em informar sobre essas dificuldades, apelar à oração pelos oprimidos e opressores, e disponibilizar todos os meios para que a Igreja perseguida não deixe de realizar a sua missão de evangelização.
Para conhecer mais sobre esta organização, pode consultar: http://www.fundacao-ais.pt
Alguns casos de tensão e conflito religioso pelo mundo
Alemanha. Em Berlim, a Câmara dos Representantes dos Estados aprovou um decreto que proíbe os representantes públicos de usarem crucifixos, véus ou o kippa judeu enquanto trabalham. Na Baviera é proibido às professoras muçulmanas usar o véu nas escolas públicas. Em outros Estados há discussões públicas sobre o assunto.
Holanda. A coexistência inter-étnica na Holanda revelou problemas com repercussões ao nível dos assuntos religiosos, durante 2004. No mês de Novembro, uma série impressionante de atentados fez temer o desencadear de violência inter-étnica em todo o território nacional. A causa do aumento da tensão deveu-se ao assassínio de Theo van Gogh (que realizara um filme sobre as mulheres muçulma-as) pelo fundamentalista islâmico Mohammed Bouyeri. Como reacção, a mesquita de Utrecht foi incendiada a 5 de Novembro e dois dias depois, acusando o grupo do incidente, a polícia prendeu um jovem holandês. Três jovens holandeses foram depois presos por terem tentado incendiar a mesquita de Huizene. No mesmo dia foi incendiado o Centro Islâmico de Breda e a mesquita Mevlana de Roterdão, cidade onde foram encontrados panfletos com ameaças dirigidas aos muçulmanos. Gradualmente a tensão diminuiu, mas os observadores temem que um único incidente de violência possa gerar manifestações extremistas de intolerância.
Sri Lanka. No decorrer de 2004, houve uma escalada de atentados realizados por extremistas budistas contra minorias cristãs. Os atentados envolveram mais de 60 igrejas nos primeiros seis meses do ano e fazem parte de uma campanha anti-cristã que há anos tenta introduzir medidas que impeçam a conversão dos budistas. A organização Christian Solidarity Worldwide declarou que a criminalização de todas as formas de caridade, que é vista como uma fraude, põe em perigo o importante trabalho social desenvolvido pelas organizações cristãs junto dos mais necessitados, independentemente da sua religião. O compromisso das igrejas e organizações cristãs no auxílio às vítimas do tsumani que matou mais de 30 mil pessoas no Sri Lanka no dia 26 de Dezembro foi exemplar e mundialmente reconhecido.
Quénia. A preparação de uma nova Constituição do Quénia, com o objectivo de restabelecer uma prática política adequada neste país, tornou-se a causa do conflito entre cristãos e muçulmanos. Há anos que os muçulmanos exigem que mais tribunais apliquem a lei islâmica e uma jurisdição mais abrangente que também inclua as questões comerciais. Vários padres católicos foram assassinados no último ano, em contexto de confronto de religiões.
Nigéria. No decorrer de 2004, a situação na Nigéria foi extremamente grave. Os cristãos foram vítimas de ataques, perseguições e abusos, com confrontos e violência nos estados do norte da Confederação. Desde 1999 que a shari’a (lei muçulmana) tem sido introduzida gradualmente em 12 destes Estados. Durante os últimos anos, mais de 10 mil pessoas foram mortas e centenas de milhares foram forçadas a abandonar as suas casas, na sua maioria pertencentes à religião cristã.
