Libertação da solidariedade

Encíclicas Sociais: Sollicitudo Rei Socialis (1) Diz-se que Bento XVI prepara uma encíclica social, a “Caritas in veritate”, para, retomando a “Populorum progressio”, de 1967, e a “Sollicitudo rei socialis” (SRS), de 1987, falar dos novos problemas do desenvolvimento e da globalização. Diz-se, também, que esteve prevista para 2007, altura em que os outros dois documentos completavam 40 e 20 anos, respectivamente, mas terá sido adiada em parte por causa da crise que se adivinhava.

Quando a SRS foi publicada, no final de 1987 (30 de Dezembro), as atenções recaíram no n.º 44, que afirma que há nações que “precisam de reformar algumas estruturas injustas e, em particular, as suas instituições políticas, para substituir regimes corruptos, ditatoriais ou autoritários por regimes democráticos, que favoreçam a participação”.

Nunca um documento eclesial fora tão explícito a pedir reformas políticas nem tão claro a apontar as causas do subdesenvolvimento. João Paulo II refere-se aos “dois blocos contrapostos”, ao imperialismo e neocolonialismo, ao desvio de recursos para o armamento, ao isolamento egoísta, ao comércio de armas, ao problema demográfico…

A SRS, escrita já no declínio da Teologia da Libertação, será provavelmente a encíclia social mais próxima desta corrente de teologia que defendia energicamente a participação social dos mais desfavorecidos, principalmente na América Latina. O Papa a ela se refere com estas palavras: “No período que se seguiu à publicação da encíclica «Populorum Progressio» nalgumas áreas da Igreja Católica (…), difundiu-se uma nova maneira de enfrentar os problemas da miséria e do subdesenvolvimento, que faz da libertação a categoria fundamental e o primeiro princípio de acção”. “Aspirar à libertação de toda e qualquer forma de escravatura, relativa à pessoa e à sociedade, é algo de nobre e válido”, acrescenta depois de notar que a Teologia da Libertação tinha (tem) valores positivos e desvios.

Porém, a ideia que está na base da SRS é a de solidariedade – não esquecer que o João Paulo II vinha da Polónia, onde a revolução provocada pelo sindicato Solidariedade (Solidarnosc) ainda estava em curso.

O termo «solidariedade» aparece 27 vezes na SRS, substituindo, por exemplo, «igualdade» (como no n.º 33: “O desenvolvimento deve realizar-se no quadro da solidariedade e da liberdade, sem jamais sacrificar uma e outra, com nenhum pretexto”). A solidariedade é definida não como “sentimento de compaixão vaga ou de enternecimento superficial pelos males sofridos por tantas pessoas próximas ou distantes”, mas como “determinação firme e perseverante de se empenhar pelo bem comum; ou seja, pelo bem de todos e de cada um, porque todos nós somos verdadeiramente responsáveis por todos”. “A solidariedade que nós propomos – diz João Paulo II – é caminho para a paz e, ao mesmo tempo, para o desenvolvimento”. Esta encíclica liberta a solidariedade.

A primeira frase da SRS

“A solicitude social da Igreja, que tem como fim um desenvolvimento autêntico das pessoas e da sociedade no respeito e na promoção do ser humano em todas as susas dimensões, manifestou-se sempre das mais diversas maneiras”.