Libertinismo – doença mortal da democracia?

Questões Sociais No âmbito da revolução soviética subsequente a 1917, V. Lenine escreveu alguns textos que vieram a ser compilados num livro intitulado «esquerdismo – doença infantil do comunismo». Por analogia, justifica-se perguntar agora se a propensão libertina actual não será uma doença da democracia; doença não só infantil mas também mortal. Na reflexão sobre o assunto, convirá termos em conta que o libertinismo se observa em todos os domínios da vida e actividades humanas: observa-se na economia, sob a forma de liberalismo, ou neoliberalismo, sem limites (Cf. o n.º 14 da «Laborem Exercens», de João Paulo II); e na contestação sistemática, sob a forma de oposição a tudo o que limite a satisfação plena de impulsos e interesses (cf. o n.º 43 da «Caritas in Veritate», de Bento XVI). Em geral, considera-se, de direita, o libertinismo económico e, de esquerda, o contestatário; trata-se, porém, de um equívoco, dado que ambos se situam na esfera do extremismo amoral, destruidor da corresponsabilidade, do bem comum e da dignidade humana.

O libertinismo económico está patente no poder económico transnacional e nacional incontrolável, ilegal e ilegímo, que perpetua a velha «exploração do homem pelo homem». O libertinismo contestatário está patente no poder demolidor da autoridade legítima, da defesa nacional, da segurança pública, da sustentabilidade económico-social…, sem olhar a meios para alcançar os seus fins. Os dois convergem na destruição do Estado soberano e na ingovernabilidade democrática dos povos. Corroem os regimes democráticos, abusam das liberdades que eles proporcionam, e fazem o jogo de poderes obscuros, considerados ou não «terroristas». O libertinismo económico esteve na origem da actual crise económica, e condiciona os Estados e a sociedade civil na respectiva superação. O libertinismo contestário recorre a manifestações diversas como, por exemplo, a agitação violenta, a difusão abusiva de documentos secretos, a «greve selvagem» (como a de controladores aéreos, em Espanha)…

Uma parte significativa dos grandes meios de comunicação social integra os dois libertinismos; dedica-lhes toda a atenção, acriticamente, e aceita, como igualmente defensáveis, todas as posições económicas, políticas, morais e outras. Mais do que isso: integra, na sua identidade, a desacreditação do poder político e de outras instituições e valores, como se a sua liberdade consistisse em estar sempre contra eles.