Foi lançado há dias, na Alemanha, antes da visita de Bento XVI ao país (22 a 25 de Setembro), o livro de Georg Ratzinger “Mein Bruder, der Papst” (“Meu irmão, o Papa”), escrito em colaboração com o jornalista e historiador Michael Hesemann. Neste livro, ainda sem tradução em português, Georg revela como se sentiu ao ver o seu irmão mais novo ser eleito Papa, no dia 19 de Abril de 2005. “Tenho que dizer honestamente que nesse momento fiquei bastante deprimido ao pensar que o meu irmão deixaria de ter tempo para mim”. Contudo, o mais velho dos irmãos Ratzinger assegura que o Papa lhe dá a sensação de conservar um mínimo de vida normal, apesar das exigências do Vaticano. De vez em quando o Papa encontra tempo para ver o “Comissário Rex”, uma série policial austríaca em que um cão desempenha o papal principal. “Nós gostamos muito de cães”, diz Georg, que espera que o livro contribua para “aumentar o interesse pelo Papa e pela Igreja.
A agência católica Zenit falou com Michael Hesemann, que escreveu o livro a partir das conversas com o irmão do Papa. Entrevista conduzida por Jesús Colina.
O livro ajuda a entender melhor a vocação de Joseph Ratzinger?
Michael Hesemann – Esta é a intenção do livro, que foi escrito por causa do sexagésimo aniversário de ordenação sacerdotal de Sua Santidade e do irmão dele, o padre Georg Ratzinger. O livro mostra a sua incrível e totalmente inesperada “carreira”, que segue uma espécie de plano escondido, que só pode ser obra da Divina Providência. Quando visitei a Escola de Evangelização da Comunidade do Emanuel, em Altoetting, um santuário mariano de importância central na infância de Joseph Ratzinger, escutei o seguinte lema: “Dá tudo e receberás mais”. E foi exactamente esse o princípio que ele seguiu. Ele sempre deu tudo, serviu ao Senhor com todas as suas capacidades, e recebeu muito mais do que alguma vez teria imaginado ou desejado.
O seu livro tem elementos novos da vida de Joseph e Georg Ratzinger?
Claro. Pormenores pessoais da vida familiar. E podemos descobrir o valor de outro slogan: “Família que reza unida, permanece unida”. A família Ratzinger foi uma espécie de baluarte contra as ondas de todos os períodos tempestuosos, incluindo o nazismo e os horrores da guerra. E eles encontraram força num profundo sentido religioso e na vida religiosa intensa. Hoje, quando muitas famílias são dilaceradas por problemas e divórcios, os Ratzinger poderiam representar um modelo positivo de família. O segredo deles é ser uma família que segue a vontade de Deus, uma família que é célula fundamental da Igreja. Com mais famílias assim, não teríamos esta falta de vocações!
O que o surpreendeu nas conversas com o irmão do Papa?
Muitas cosas, mas a maior surpresa foi descobrir o caminho que levou Ratzinger à sé de Pedro. O dia mais importante da vida dele foi a ordenação sacerdotal, em 29 de Junho de 1951, quando entendeu tudo o que podia dar às pessoas, permitindo que o Espírito Santo trabalhasse através dele. Ele gostava de ser vigário numa paróquia de Munique! Mas depois, com aquela mente extraordinariamente brilhante, foi incentivado a ser professor de teologia. E gostou. Não queria ser bispo. Tiveram que convencê-lo. Depois, o Papa Paulo VI nomeou-o arcebispo de Munique. Quando João Paulo II o chamou para Roma, ele deu uma série de motivos para ficar na Baviera, mas alguém o convenceu de novo. E desta vez foi o próprio Papa quem teve que convencê-lo: “Munique é importante, mas Roma é mais importante”.
Ele sonhava reformar-se e passar mais tempo com o irmão, escrever livros, mas foi eleito papa. Isso lembrou-me as palavras que nosso Senhor disse a São Pedro: “Outro te cingirá e te levará para onde tu não queres” (João 21,18). Foi uma profecia que se cumpriu com o martírio do príncipe dos apóstolos. Mas descreve muito bem o que aconteceu a Joseph Ratzinger. Se analisar a vida dele, verá que “alguém” o preparou para o ministério de Pedro desde o começo. Tudo é obra de Deus!
Outra surpresa foi ver a oposição incondicional da família Ratzinger aos nazistas, desde o início. O pai deles, que também se chamava Joseph Ratzinger, era um leitor assíduo da publicação católica mais anti-nazista, “Der gerade Weg” (“O caminho direito”), cujo redactor, Fritz Michael Gerlich, foi um dos primeiros mártires católicos da Alemanha nazista. Ratzinger pai era chefe de polícia numa cidade pequena, Tittmoning, e sofreu sérias dificuldades mesmo antes da chegada do nazismo ao poder, porque tinha ordenado a suspensão de vários encontros de nazistas e tinha entrado em confronto com os nazistas várias vezes. Por fim, foi obrigado a dar um passo para trás na sua carreira e continuar o serviço num vilarejo, Aschau.
A entrada de Georg e Joseph no seminário, a decisão de serem padres, naquela época, era uma clara rejeição do nazismo, que se opunha fortemente à Igreja. Eles foram ridicularizados e discriminados por causa dessa decisão, mas seguiram a consciência. O pai dos Ratzinger, que na época vivia de uma pobre pensão, recusou as vantagens económicas de aderir ao partido nazista. O adolescente Joseph Ratzinger conseguiu não participar na juventude hitleriana, apesar de ser obrigatório. Simplesmente não participou. E quando foi obrigado a ser soldado, desertou e livrou-se por milagre da cadeia e da forca prevista para os desertores.
Que lugar ocupa a música na vida de Georg? E o que dizer de Joseph?
A música sempre desempenhou um papel importante na vida da família Ratzinger. O seu pai não só cantava no coro infantil da sua paróquia, mas também tocava o “zither”, uma cítara popular da música folclórica da Baviera. A mãe, que tinha sido governanta na casa de um maestro, esteve em contacto com a música clássica desde jovem. Assim, quando Georg descobriu o seu enorme talento musical, contou com o incentivo dos seus pais. Era fascinado por harmónica, por isso o seu pai comprou uma, e ele tocou tão bem que quando tinha apenas 10 anos o pastor pediu para tocá-la durante a Missa das crianças.
Joseph compartilhava o seu amor pela música e teve aulas de piano. Ainda hoje, como Papa, ele toca piano, quando tem algum tempo. Encanta-lhe a música clássica, especialmente Mozart. Os jovens Ratinzger uma vez conseguiram ir ao Festival de Salzburg e ouvir um grande concerto. Hoje, quando Georg Ratzinger vai ver o seu irmão, o Santo Padre pede-lhe que toque piano, o que realmente lhe encanta.
Como é Georg Ratzinger?
Cada encontro com ele foi realmente muito bonito. Ele tem um coração de ouro. Em muito poucas ocasiões vi um homem tão humilde, amável e afável como ele. Ao mesmo tempo, fiquei impressionado com sua memória, algo que ele compartilha com seu irmão. É um grande homem e, certamente, não apenas “o irmão do Papa”, porque ele tem feito uma carreira notável por sua conta, como director do coro juvenil da Catedral de Ratisbona (Regensburger Domspatzen em alemão), conhecido em todo o mundo. Eles oferecem concertos no Japão e nos Estados Unidos e em muitas outras partes do mundo. É também um compositor talentoso. Mas acima de tudo, um verdadeiro cavalheiro e um sacerdote de coração grande, profunda fé em Deus e agudo e sadio sentido de humor.
