Darwin não foi a Damasco No ano em que a Igreja católica celebrou São Paulo e o mundo ainda celebra os 200 anos do nascimento de Darwin e os 150 da publicação de “A Origem das Espécies”, é legítimo perguntar: “A escala nos Galápagos teria sido a estrada de Damasco de Darwin?”

Foi no arquipélago do Pacífico, ao largo do Equador, que o cientista inglês observou espécies diferentes de ilha para ilha e recolheu os principais elementos para elaborar a teoria da evolução a partir de um ancestral comum, por meio de selecção natural.

A pergunta da estrada de Damasco é colocada por Jacques Arnould, em “Requiem por Darwin”, tal como a resposta.

“O risco de fazer Darwin o São Paulo de uma nova religião – a evolução –, o fundador de uma igreja moderna – a do darwinismo –” é enorme. Mas “Darwin não tem nem a energia de um apóstolo, nem a tenacidade de um revolucionário; basta-lhe não duvidar da veracidade das suas observações, hipóteses, teorias, nem da confusão que iriam certamente provocar” (p. 26).

“Requiem por Darwin”, escrito por um francês, consegue em certos pontos citar franceses mais ou menos contemporâneos de Darwin, a propósito e a despropósito – o que para alguém que não é francês parecerá sempre a despropósito. Mas é um livro de leitura muito sugestiva. Tem-se uma boa noção do traba-lho e significado de Darwin, da recepção pelas igrejas anglicana e católica da sua obra, do próprio cientista enquanto pessoa. O livro cita, por exemplo, a lista de motivos elaborada por Darwin para se casar ou não se casar. Darwin não deixava nada ao acaso. Era tudo muito ponderado, racionalizado, não pré-determinado pela biologia – quer dizer o autor. Charles casa-se com a prima Emma em 1839.

A biologia, cega, é uma coisa; a vida humana, orientada pelo livre arbítrio, é outra. Darwin, para lá do estrito campo biológico, não era um darwinano, nem social nem teologicamente, como são os que acham que na sociedade os mais fracos devem ficar para traz e que a ciência se opõe a Deus. “Requiem, pois: Que Charles Darwin descanse em paz. (…) [Ele, que] sempre se recusou a conferir às suas ideias uma orientação profética; limitou-se, mas com que grandeza!, a observar, a perscrutar as origens dos seres vivos e da espécie humana” (p. 235).