Longa vida à paróquia

Se começa a ser evidente que a estrutura paroquial não serve para as exigências pastorais modernas, é também claro que a paróquia ainda é o espaço cristão mais próximo das pessoas e aquele que mais coesão social dá às comunidades.

Esta constatação encerra, podemos dizer, uma força desagregadora e outra congregante. A força desagregadora vem do sentimento crescente de que a paróquia está ultrapassada. Repare-se, por exemplo, no uso da palavra “paroquial” em artigos de imprensa com o sentido pejorativo de “ter vistas limitadas” ou algo como “não sair do seu grupinho”.

A paróquia é ultrapassada quando as pessoas se deslocam de um lado para outro à procura do padre ou da missa de que gostam mais ou onde se sentam mais acolhidas. É ultrapassada quando as fronteiras geográficas são irracionais, obrigando uma criança a ir à catequese a um sítio mais longe mas da paróquia, quando há outro mais perto aonde não pode ir porque é de outra paróquia. Está ultrapassada quando, com a diminuição do número de padres, em cada paróquia se multiplicam os mesmos serviços, com imensos gastos económicos e de recursos humanos.

Mas há também a força congregante. Sai da freguesia o centro de saúde, sai a polícia, sai a escola… mas fica o padre ou pelo menos a paróquia com as suas estruturas e serviços e com a disponibilidade do padre. A paróquia continua a ser a estrutura cristã mais próxima das pessoas, o elemento fundamental de coesão humana, um dos principais factores de integração social. Também em meio urbano.

Dizia Manuel Alte da Veiga, na apresentação do livro “Paróquia e Unidades Pastorais”, de Georgino Rocha (no decorrer da sessão solene do ISCRA, no passado dia 8), que a paróquia é “um reduto de vivência festiva da vida” e também o “posto avançado para a vivência humana”, onde a “cidadania é partilhada”, onde há espaço para “a fé formar, mas nunca a formatar”. É o espaço do “grupo perfeito”, o grupo onde se pode ser humanamente completo.

O livro do P.e Georgino Rocha debate-se com a necessidade da paróquia e com a sua insuficiência. Por isso, se começa por apontar âmbitos da paróquia, que podem bem funcionar como pistas de renovação (“da paróquia fontanário à paróquia rede”; “autoridade participada” na paróquia, os movimentos, a realidade juvenil, a festa, o luto…), aponta depois para o arciprestado (que para todos os efeitos continua a ser um grupo de paróquias) e para a realidade nova das unidades pastorais.

Apesar das experiências que se vão fazendo e dos reflexos das realidades italiana e espanhola que chegam a este livro, as unidades pastorais parecem não fugir de um agregado de paróquias. São tudo e apenas o que uma paróquia é, mas multiplicado algumas vezes (pelo número de paróquias). São estruturas que podem dar jeito do ponto de vista da organização pastoral, mas que dificilmente correspondem às vivências das pessoas. Quem diz “sou da unidade pastoral X” em vez de “sou da paróquia X”? Ou “fui baptizado na Igreja da UP X”?

Se é verdade que “a Eucaristia faz a Igreja e a Igreja faz a Eucarisita”, isso quer dizer simplesmente que a Eucaristia faz a comunidade cristã. Ora, enquanto a celebração principal da Eucaristia estiver centrada na igreja paroquial, a comunidade paroquial perdurará. Poder-se-á voltar a comunidades mais pessoais e personalizadas como no tempo de Paulo? (E como agora também existem em volta de algumas congregações religiosas?) Acho que não, pelo menos para a maioria dos cristãos. Os sacramentos, com raríssimas excepções, são administrados e registados na paróquia. Longa vida à paroquia, portanto. E que bom seria que ao escreverem que “isto é paroquial” estivessem a querer dizer que “isto é personalizado”, “isto é acolhedor”, “isto sincero, mas profundo”, “isto é onde as pessoas podem crescer humana e espiritualmente”.

J.P.F.