Luta contra quem?

Questões Sociais Estamos numa fase de luta política, sindical e mais alargada que ameaça continuar. No plano das intenções, a luta dirige-se contra o grande capital financeiro, contra o patronato explorador e contra o governo, supostamente dominado por esses interesses. Mas será mesmo assim? – Por certo, não. O grande capital financeiro localiza-se, em qualquer parte, onde mais lhe convém; se lhe convier, não investe em Portugal, foge do país, pressiona o aumento dos juros da nossa dívida soberana… O patronato explorador resiste a todas as investidas e, quando necessário, procede a despedimentos, encerra empresas, deslocaliza-se para outras paragens… O governo, ao contrário das outras duas forças, é efetivamente atingido mas, na melhor das hipóteses, será substituído por um outro que será igualmente contestado como todos têm sido.

Na verdade, as lutas políticas, sindicais e outras vão direitinhas contra outras realidades. Vão contra o capital que estaria disponível para investir e continuar em Portugal. Vão contra os empresários mais sérios e, sobretudo, contra os mais débeis, que não aguentam as exigências políticas, sindicais e outras, agravadas pela crise atual; os trabalhadores envolvidos nestes meandros também saem prejudicados. O mesmo se diga da própria governabilidade do país, na medida em que todos os governos são contestados sistematicamente.

Alguns contestatários entendem, com razão, aliás, que o sistema económico dominante é intrinsecamente injusto, pelo menos tal como vem funcionando. Contudo, perante isso, há duas estratégias antagónicas: a da «terra queimada» e a da ação consequente. A estratégia da ação consequente implica: a adoção de um sistema diferente; a adoção de orientações para a transição; e a adoção de medidas consistentes para a solução ou atenuação, no imediato, dos problemas que nos atingem. As medidas serão consistentes mediante: a precisão e justiça do seu conteúdo; a viabilidade financeira; e a aceitação democrática. Tudo isto implica um trabalho diário e sistemático de análise, de diálogo, de proposta, de influência e de atualização, em intervenção cívica permanente (cf. «Compêndio da Doutrina Social da Igreja», n.ºs 168, 190, 417-418 e 567).

Existe alguma força ou entidade política, sindical, patronal, cultural, moral… que esteja a atuar desta maneira?