A Igreja é de origem divina. Se dúvidas restassem, a torrente de bem que ela mediou, ao longo de vinte séculos, em benefício da humanidade, e a capacidade de superar crises internas e externas, de enfrentar perseguições e desaires…, seriam suficientes para convencer aqueles que, com reta intenção, olham criticamente para o seu percurso e estremecem de perplexidade em ocasiões de divulgação de escândalos dos seus membros.
A sentença do sábio Gamaliel junto dos seus pares do Sinédrio é suficiente para tranquilizar quantos creem convictamente e se dispõem ao testemunho até ao martírio. Na verdade, a consciência da fragilidade humana de quantos compõem o corpo da Igreja e os receios que ela possa produzir, tudo é serenamente ultrapassado por esta prova de fogo que a história nos apresenta.
Sobretudo, comparando os seus limites com a caducidade de tantas propostas e sistemas sociais, económicos, políticos e mesmo judiciais, confrontando o seu pecado com as perversões de tantas iniciativas humanas, concluímos que ela é, em muitas circunstâncias a última tábua de salvação que as pessoas e grupos encontram.
Muitas vezes o refletimos, várias vezes lançamos o desafio: cessem todas as iniciativas de ação educativa, sanitária, de apoio social, de promoção cultural e artística, de mediação de conflitos… da Igreja e imaginemos como ficaria o mundo.
Não temos que nos afligir com esse gosto doentio de certa comunicação social empolar os “escândalos eclesiásticos”, com esse hábito intencional de desacreditar a última segurança da pessoa e das sociedades. Costuma dizer-se isso em relação aos “factos políticos”, mas podemos apropriá-lo sem rodeios: são diversões para obscurecer o desnorte da sociedade privada de valores, são álibis para desviar as atenções da responsabilidade de quem rouba ao homem e ao mundo a sua maior riqueza, a sua condição de seres divinizados, chamados a uma plenitude de vida, que ultrapassa o espaço e o tempo, que supera os limites do material, que começa neste mundo mas é dinamismo para “novos céus e nova terra”.
A miopia dos interesses imediatos e egoístas não tolera a largueza de horizontes de infinito e solidariedade – caridade – sem fronteiras nem condições. “Eu estou sempre convosco” é a garantia do timoneiro que, mesmo que pareça, não dorme nesta barca ao serviço da humanidade. Luz e sombras produz um cenário muito mais real e rico que a monotonia.
