Se Madre Teresa de Calcutá fosse viva, teria feito 100 anos no dia 26 de Agosto de 2010. Se fosse viva? Para quem acredita na ressurreição, está certamente viva com todos os eleitos. E para muitos outros, aceitem ou não a fé cristã, continua viva enquanto inspiradora de acções em favor dos mais frágeis.
Há dias, contava o professor Eugénio Viassa Monteiro, presidente da Associação de Amizade entre Portugal e a Índia (jornal “Público”, 15 de Agosto): “O dr. Shetty tratou a madre Teresa de Calcutá, nos anos 90; e tem no seu gabinete dois quadros dela, com uma frase inspiradora: «Mãos que servem são sagradas como lábios que rezam»”. O dr. Shetty, para perceber o alcance da inspiração, comanda um grupo que há dias inaugurou 500 camas numa cidade hospitalar, na Índia, e promete inaugurar mais 500 por ano, na próxima década. Uma revolução na saúde do segundo país mais populoso do mundo. Além disso, constituiu um fundo para quem não tem posses e criou um micro-seguro de saúde para cobrir até determinado “plafond”. Na cidade hospitalar prefere dar emprego a mulheres, quando se trata de conduzir os pequenos carros como os de golfe entre os vários módulos, porque elas, ao contrário dos homens, “investem na família todo o dinheiro que ganham”.
Por estas e outras inspirações, dentro e fora da Igreja, Bento XVI disse que a vida de Madre Teresa é um “dom inestimável” para a Igreja e para o mundo. Em carta às Missionárias da Caridade, nos cem anos da fundadora, afirmou: “Encorajo-vos a aprender constantemente da espiritualidade e do exemplo de Madre Teresa e, nos seus passos, aceitar o convite de Cristo: «Vem, sê a minha luz»”.
Agnes Gonxha Bojaxhiu nasceu na actual Skopje, actual capital da Macedónia, a 26 de Agosto de 1910. Deixou a sua terra natal em Setembro de 1928, entrando na congregação do Loreto, na Irlanda. Ali recebeu o nome de Teresa, inspirada por Teresa de Lisieux. No dia 10 de Setembro de 1946, no comboio de Calcutá para Darjeeling (estava na Índia desde 1929), Madre Teresa recebeu aquilo a que chamou “chamamento no chamamento”, e que levaria a criar a congregação das Missionárias da Caridade para dedicação aos mais abandonados da sociedade. “Teresa de Calcutá pensava nos pobres da cidade que todas as noites morrem pelas ruas e, na manhã seguinte, são lançados para os carros de limpeza como se fossem lixo. Começou a levar os moribundos para um lar onde pudessem morrer em paz e com dignidade. Depois, abriu um orfanato. De forma gradual, outras mulheres se lhe uniram neste projecto”, lê-se num texto da agência Ecclesia.
Em 1979, Madre Teresa recebeu o Prémio Nobel da Paz, como reconhecimento pelo seu trabalho. E quando morreu fizeram-lhe um funeral de Estado da Índia.
De passagem por Portugal (a congregação tem uma casa em Setúbal), Madre Teresa encontrou-se com jornalistas – contou D. Manuel Martins, bispo emérito de Setúbal, nas páginas da “Família Cristã”. Perguntou um jornalista: “Então, irmã, não acha que era mais humano e mais evangélico convencer os pobres a protestarem contra quem os explora, em vez de os manter assim alienados?” A religiosa responde sem demora: “Vocês têm razão, mas para protestarem, precisam de força e eu forneço-lhes comida para conseguirem as forças necessárias para protestarem”.
Força era coisa que não faltava à mulher pequenina e aparentemente frágil. Podemos ver nela o exemplo acabado daquilo que ela própria escreveu: “Tem sempre presente que a pele vai ficando enrugada, que o cabelo se torna branco, que os dias se vão convertendo em anos, mas o mais importante não muda! A tua força interior e as tuas convicções não têm idade. O teu espírito é o espanador de qualquer teia de aranha. Atrás de cada linha de chegada, há uma de partida. Atrás de cada trunfo, há outro desafio. Enquanto estiveres vivo, sente-te vivo. Se sentes saudades do que fazias, torna a fazê-lo. Não vivas de fotografias amareladas. Continua, apesar de alguns esperarem que abandones. Não deixes que se enferruje o ferro que há em ti. Faz com que, em lugar de pena, as pessoas sintam respeito por ti. Quando, não conseguires correr, trota. Quando não puderes trotar, caminha. Quando não puderes caminhar, usa a bengala. Mas nunca te detenhas!”
Reconhecendo que Madre Teresa nunca se deteve, a escritora Inês Pedrosa escreveu em “20 mulheres para o séc. XX” (D. Quixote), revelando também o seu bom humor. “Aos 87 anos, muito próxima da morte, Teresa de Calcutá ria-se das repetidas falhas do seu coração. Não tinha medo da morte, que acabaria por a levar a 5 de Setembro de 1997, porque tinha a certeza de que «morrer é voltar para casa». E, nas sucessivas saídas do hospital, contava esta anedota sobre si própria: «S. Pedro deve ter dito: Deixem-na estar aí. Não há bairros de lata no Céu»”.
Madre Teresa de Calcutá continua entre nós, porque ainda há muitos bairros de lata.
J.P.F.
