“Sejam sempre capazes de sentir profundamente qualquer injustiça praticada contra qualquer pessoa em qualquer parte do mundo. Esta é a qualidade mais linda de um revolucionário.”
Enquadrado no seu contexto, este é um bonito pensamento, dos tempos de juventude de Guevara, quando o cansaço ainda não lhe tinha toldado o entendimento, levando-o a fazer mal em nome do bem maior que ele pensava procurar. Não pretendo julgar a pessoa, nem as suas acções. Não o faço porque o meu juízo seria o do ano 2007 na Europa e a realidade dele era outra, com outras condicionantes. É, de facto, uma figura que admiro imenso, até certo momento da sua vida. Sinto-me em sintonia com a força que viveu intensamente.
1. Sentir profundamente uma injustiça não foi, com certeza, o que levou a Arca de Zoe, uma suposta ONG francesa a ‘salvar’ crianças supostamente órfãs (não o eram), supostamente do Darfur (também não o eram). Se todas as suposições fossem verdade, levá-las-iam sim para o campo de refugiados mais próximo e com melhores condições, não tratariam de as levar para França, a mesma França que há pouco tempo fez avançar legislação difícil a qualquer imigrante.
Das duas uma: ou asnos de caridadezinha e com muito dinheiro (frete de um avião?!) ou criminosos que mais não queriam que fazer negócio, como negreiros do século XXI (segundo o L’Expréssion, um diário de Argel).
2. Um dos crimes pelo qual não serão julgados foi a desconfiança que lançaram sobre todas as ONG’s. A comunicação social africana brada aos céus a culpa delas. O Presidente do Chade, Idriss Itno, aproveita para atingir franceses e as ONG’s que se julgam acima das leis locais. Lança-se a desconfiança geral em relação às Missões e Projectos que elas desenvolvem. Desconfia-se de tudo…, porque uns senhores resolveram fazer-se passar por uma ONG e enriquecer criminosa ou ingenuamente à custa disso.
3. Muitas Organizações vivem bem. Com bons jipes (a Comissão Europeia não permite a utilização, em projectos humanitários financiados por si, de viaturas com mais de 2 anos). Muitas outras, à custa das despesas de deslocação, lá vão ganhando bem com cada uma que fazem, seja ela de 170 kms a Lisboa, seja ela de 8000 kms a bem mais longe.
4. Muitos dos grandes acusam os pequenos de amadorismo, de voluntarismo, no sentido pejorativo da palavra; enquanto os primeiros esbanjam orçamentos, os pequenos põem do bolso e não é porque queiram.
6. Muitas vezes, chegam às Organizações pessoas para o voluntariado muito bem mascaradas de boas intenções. Avançam mundos e fundos; mas em pouco tempo vem à superfície a verdadeira motivação: ou lavar pecados do passado pessoal, ou construir um bom currículo social ou outras coisas menos dignas. O que no início era “só para ajudar” acaba por causar mais trabalhos do que o trabalho que inicialmente renderia.
5. Conclui-se que, para ajudar, é preciso saber fazê-lo. É preciso trabalhar para a causa, para a ajuda, para o desenvolvimento adequado e autónomo das populações. Antes de dar roupas, livros, fundos monetários, o que quer que seja, saiba sempre com quem está a lidar, peça sempre “feedback” daquilo em que investe o seu esforço.
Geralmente, as organizações da Igreja Católica são sempre eficientes e de confiança, por isto mesmo: mantêm a garra do Amor cristão ao próximo e reúnem a competência de uma organização estruturada.
Não deixe de ajudar, só porque alguém se faz passar pelo que não é. Muitas vidas já foram verdadeiramente salvas e sem saírem das suas terras. Esse trabalho pode continuar… se soubermos como e quisermos ajudar e fazê-lo bem.
