A Árvore de Zaqueu Mãos sujas, de quem mexe na lama e nas mais estranhas florestas de quanto existe. Mãos sensíveis, para sentir a diversidade e a consistência do que vão percorrendo como bichinhos num mundo novo. Mãos sensuais, que acariciam outras mãos. Mãos inteligentes, a quem não basta sentir, e que a tudo são capazes de dar formas novas. Mãos visionárias, que tocam no que não se vê e no que não se pode ver, moldando o presente com restos do passado e com sonhos do futuro, sentindo a alma das coisas, a alma do universo, a alma da vida.
Mãos que fazem jus à riqueza da história da «mão»: instrumento de luta e de trabalho, de salvação e de repulsa, de carinho e de castigo… símbolo de força física e moral e da autoridade própria do «paterfamilias» que licitamente podia usar «mão de ferro»… Do latim «manus» (indo-europeu «man», graficamente o mesmo étimo de «homem» em inglês, formando porém uma cadeia semântica distinta), donde derivam manual, mancebo, emancipar…; e mandar (pôr ou dar na mão do outro), recomendar, amanuense (sob o domínio da mão do outro), mansidão (habituado ao domínio de quem «tem mão»)… Como vemos, o sentido de domínio e força é de extrema importância («manus» também significa protecção e até um pequeno ou grande exército). Aliás, nas principais línguas conhecidas, o sentido central do termo em questão é agarrar, segurar, dominar.
Mãos artistas, que pintaram, ao longo dos tempos, as «mãos do Salvador», os seus gestos mais significativos, e sobretudo a imposição das mãos, mesmo antes de se «esconder no céu», onde as nossas mãos não chegam mas onde chega a sua arte. Não é na Capela Sixtina, que as mãos de Deus e de Adão se tocam num fluxo de força?
Mãos que «baptizam»: outra coisa não é esse acto, em que a força de Deus nos transforma numa extensão da sua «mão» forte e carinhosa, rigorosa e artista – lembrando o cuidado com que se lava um filho pequeno a preceito para a festa que há-de vir…
Mãos de todos os que as querem entrelaçar para formar uma humanidade unida e forte, formando uma corrente onde o amor é tão vivo que por vezes as mãos se fundem umas nas outras.
Mãos que dizem um adeus: como as de Jesus na hora da «ascensão», em que «mandou» os discípulos pelo mundo, estendendo as mãos a quantos os quisessem receber. Mãos de quem veio e vem ao nosso encontro, mãos que cobriram o rosto em chaga de Jesus, como cobriram as moléstias de tantos cegos, mudos e surdos…
Mãos dadas com esse Jesus que, «subindo ao céu», nos quer dizer que viver é «estar com Deus» – coroando a obra das nossas mãos. E assim quis garantir, a quem quiser dar as mãos, o sucesso da «subida» para a Vida verdadeira: basta saber usar o poder das nossas mãos!
Mãos teimosas, como as que de mil maneiras querem dar forma ao conceito de «ressurreição», enganando tantas vezes os nossos olhos e até o nosso discernimento… Mãos com que os próprios evangelistas misturaram as cores da «ressurreição» e «ascensão».
Como é que as nossas mãos apresentam, sem formas enganosas, o que é a vida? Não bastaria simplesmente mostrar as mãos disponíveis para todos e com todos unidos para a aventura? Não se poderia retratar a «ressurreição» ou «ascensão» como o chamamento de Deus à aventura insuperável e inesgotável da vida?
Mãos «artistas» – um termo proveniente de um dos mais ricos étimos indo-europeus: «ar» de harmonia e arte; transformando-se em «or» de ordem e originalidade; em «ra» de razão, em «ri» de ritmo… Mãos de um condutor de orquestra, de um palhaço, de um dançarino, de um engenheiro meticuloso, de um cozinheiro atento e criativo…
Mãos que desenham a originalidade da nossa ordem e da nossa origem, descobrindo a harmonia do mundo da arte com a arte do mundo.
Mãos dadas entre Deus e os Homens.
Manuel Alte da Veiga
m.alteveiga@netcabo.pt
