Poço de Jacob – 30 Não é só o padre que abençoa. A bênção de Deus é, teologicamente, uma bênção da comunidade para a comunidade. Toda a bênção parte e gera unidade e comunhão. Por isso, a palavra “diabo” significa “o que divide”. A divisão é uma maldição das comunidades, das famílias. Ser diferente é outra coisa, pois os dons do Espírito não são iguais de pessoa para pessoa. Costumámos dizer que onde houver um cristão católico, bem formado na verdade e na caridade, aí, à sua volta, está a bênção. Ele, com sua presença, é uma bênção para a sua família, para o seu emprego, para a sua sala de aulas, para os seus amigos de convívio. Ele abençoa por si mesmo e atrai sobre o mundo o amor e a paz, ainda que se sinta árido, cansado e até abandonado. Por isso, o segundo ponto do evangelizador é ter consciência de ter mãos para abençoar.
Quando eu era seminarista e vivia na comunidade que me formou nos meus inícios, a Aliança de Santa Maria, impressionou-me, um dia, a fundadora dizer-me que gostava de um determinado padre, já muito idoso, porque ele estava sempre a abençoar. De facto, sempre que nos visitava, ao chegar e ao partir, apertava a mão de cada um de nós e com as mesmas mãos fazia sobre nós a cruz da bênção. Não sei o seu nome, mas nunca mais me esqueci do gesto. Mas sei que os cristãos dos primeiros séculos se saudavam traçando uns sobre os outros, na fronte, o sinal da cruz. Sei que, nesta comunidade em que eu tive a honra de viver um tempo longo e frutífero da minha vida de formação, quando saíamos em missão por este Portugal para anunciarmos a Mensagem de Fátima, a fundadora fazia com o polegar o sinal da cruz na testa de cada um e sentíamos estar investidos numa missão bem especial. Sei que, antigamente, os filhos pediam a bênção aos pais e avós… E que, hoje, na minha sacristia, chegam jovens e velhos, pedindo a bênção porque têm uma semana forte pela frente. E dizem sentir-se tão bem. Afinal, a nossa fé estimula-os a usar as mãos para abençoar. Os esposos devem abençoar-se mutuamente, e, no meio deste acto de abençoar, muitas feridas podem ser saradas no coração magoado. E o mesmo em relação aos nossos filhos ou aos nossos pais, por vezes velhinhos ou doentes no hospital. Sem podermos dizer-lhes uma palavra, o sinal traçado sobre a sua fronte anima-os a lutar e crer… Apesar de ser proibida a cruz nas escolas, o professor pode pedir a Deus a bênção para os seus alunos. E em vez de criticarmos os nossos políticos, podemos pedir a Deus que os abençoe… E o mesmo sobre os nossos inimigos, seguindo à letra o mandato de Jesus de abençoarmos os que nos maldizem… E sobre aquele artista de cinema ou de qualquer expressão artística que nos agradou ou escandalizou… E sobre os nossos padres, nos quais encontramos sempre tantos defeitos, e os padres para com o seu Bispo ou o Papa e vice-versa. Com a certeza, porém, de que as expressões de bênção catequizam e formam, mas nada valem se a grande bênção não for o imenso AMOR que devemos ter uns para com os outros. A grande bênção é o AMOR. E isto sentiu-o a Samaritana em Jesus, como nunca o tinha sentido antes. Que Ele te abençoe e sejas tu mesmo a bênção dele para o mundo.
P.e Vitor Espadilha
