Marco orientador para uma Igreja dialogante

Cinquenta anos passados verifica-se que houve avanço nas relações Igreja/Mundo e ambos passaram a ver-se de modo diferente, exceto onde dominam os fundamentalismos religiosos e políticos. Dos novos conteúdos da GS (“Gaudium et Spes”) era de esperar isso mesmo. O Homem concreto, com a sua dignidade, é o principal espaço de encontro da Igreja com o mundo. Imagem de Deus e ser social. Por vezes, dividido entre a atração e a repulsa, é rico na sua interioridade pela sua consciência e pela sua liberdade. Dois bens sempre a respeitar e a promover. Deste modo, a GS reconhece os três valores fundamenais da modernidade, que já o são do Evangelho: liberdade (n.º 17), igualdade (n.º 29) e fraternidade (n.º 32). A partir daqui, tornou-se mais fácil a responsabilidade e a participação, porque também se reconheceu como imperativo de ação a Declaração Universal dos Direitos Humanos.

O mundo, por via desta Constituição, era, também, um espaço a reconquistar e completar-se. Identifica-se com a criação e com o lugar onde vivem homens e mulheres, muitas vezes trabalhado por forças adversas e hostis ao Reino. Mas pela Incarnação do Filho de Deus, o universo foi redimido para dar lugar a uma nova criação. Mesmo reconhecendo-se a ambivalência do mundo, a visão positiva sobrepõe-se à negativa.

O contexto da reflexão conciliar são “os sinais dos tempos”, lidos à luz do Evangelho e interpretados como apelos de Deus “para melhor conhecer este mundo em que vivemos, as suas esperanças, as suas aspirações, a sua índole frequentemente dramática” (n.º 4). Um mundo de contradições, de riquezas e de possibilidades, ao mesmo tempo de “multidões atormentadas pela fome, pela miséria, que não sabem ler nem escrever. Apesar de uma sensibilidade nova à liberdade e à paz, não faltam formas de escravidão, nem guerras destruidoras. A GS continua o seu diagnóstico da humanidade e ajuda a tomar consciência das mudanças, profundas e rápidas que se operaram e continuam na ordem social, no campo psicológico, moral e religioso que explicam os desequilíbrios no mundo moderno que fazem trazer ao de cima as aspirações universais e as interrogações mais profundas da todas as pessoas. Então a Igreja acrescenta, sem complexos, a razão da sua esperança e o sentido do seu contributo: Cristo morto e ressuscitado no qual todos devem ser salvos. “Ela crê também que a chave, o centro e o fim de toda a história humana se encontram no seu Senhor e Mestre. E afirma que, debaixo de todas as mudanças, permanecem muitas coisas que não mudam, as quais têm o seu fundamento último em Cristo, imagem de Deus invisível, Primogénito de toda a criatura”. E acrescenta que é propósito do Concílio falar a todos os homens e mulheres para “esclarecer o mistério da pessoa humana e para ajudar a encontrar a solução dos problemas maiores do nosso tempo” (n.º 10).

A Constituição segue dizendo o que a Igreja pensa do Homem, da sua dignidade, do pecado que o divide, da dignidade da inteligência, verdade e sabedoria. Da dignidade da consciência moral, da grandeza da liberdade, do mistério da morte, das formas e raízes do ateísmo e, também, do ateísmo contemporâneo e da sua atitude face a este.

Ao falar da dignidade da consciência moral, um tema cada vez mais atual, a GS (n.º 16) diz expressamente: “No fundo da consciência, o homem descobre uma lei que ele não se impôs a si mesmo, mas à qual deve obedecer e cuja voz ressoa oportunamente aos ouvidos do seu coração, convidando-o a amar e a fazer o bem e evitar o mal: faz isto, evita aquilo… A dignidade do homem está em obedecer-lhe e segundo ela será julgado. A consciência é o núcleo mais secreto do homem e o santuário onde está a sós com Deus, cuja voz ressoa no seu íntimo. É de um modo admirável que a consciência nos dá a conhecer essa lei que se cumpre no amor de Deus e do próximo”. Mesmo quando a consciência erra, nem por isso perde a sua dignidade. Deve sempre, porém conformar-se com as normas objetivas da moralidade. O texto conclui: “Quando o homem se preocupa pouco com investigar a verdade e o bem, o hábito do pecado quase cega aos poucos a sua consciência”.

O Homem Novo em Cristo é a visibilidade de que todo o homem e mulher, como pessoas humanas, são divinos por natureza e cada um leva consigo a vocação à plenitude, seja ele crente ou não crente. O crente tem a graça, pela fé em Cristo Ressuscitado, de ir penetrando nos enigmas da vida, incluindo a dor e a morte.