Questões Sociais Foi utilizada a expressão «vencidos do catolicismo» na caracterização do grupo de personalidades ligadas à revista «O Tempo e o Modo» e que se terão afastado da prática religiosa no sentido corrente. A expressão convida a uma abordagem, caso a caso: Mário Murteira foi rejeitado, numa comunidade eclesial a que pertencia; desbravou caminhos marginalizados pelo catolicismo prevalecente; afastou-se da opção capitalista, sem optar pelo comunismo; situou-se na democracia socialista (diferente do socialismo democrático e da social-democracia); apostou fortemente no desenvolvimento humano integral que, na sua plenitude, é bem-aventurança eterna… Em suma, viveu uma longa experiência de «terra de ninguém»: «terra» não identificada com nenhuma das correntes dominantes, mas verdadeiro ponto de encontro do que é mais profundo, mais solidário e mais duradoiro. Convém recordar que a opção pela democracia socialista está em conformidade com o pensamento social cristão, e constitui uma concretização política, entre outras, da «socialização» defendida por João XXIII, na encíclica «Mater et Magistra». Também está em conformidade com democracia económica referida na encíclica de Bento XVI, «Caritas in Veritate».
A vida e a morte de Mário Murteira, a par de outras figuras e acontecimentos, deixam uma grave interpelação aos cristãos leigos: deles não se espera que sejam mini-papas nem que se limitem a estudar e difundir a doutrina social da Igreja; espera-se que, sem prejuízo desse estudo e difusão, assumam as realidades terrestres, não receiem as divergências de leitura e solução, procurem os consensos possíveis e actuem coerentemente nos diferentes dinamismos de pensamento e acção onde se encontram inseridos. Mário Murteira terminou, na véspera da morte, o seu último livro intitulado, «Sonhei com a Crise»; um convite a que assumamos as nossas responsabilidades, neste momento, em pluralismo dialogante e vinculado ao bem comum, sem exclusões.
