Questões Sociais Ao contrário de uma ideia muito difundida, sobretudo a partir de 1989, o marxismo não está enterrado nem tão pouco se encontra em vias de extinção. Ele continua patente nos partidos marxistas em vários países, bem como na investigação que vem sendo realizada. Algumas abordagens, que remontam a muito antes de 1989, já o aproximam bastante da democracia tal como a entendemos, embora subsistam muitas questões pendentes.
Para além dos partidos e dos estudos conotados com o marxismo, observam-se vários dinamismos que o mantêm sempre actual. Em larga medida, tais dinamismos não se baseiam no marxismo «científico», mas sim no «vulgar», tendo em conta uma distinção antiga que João Paulo II também assumiu (Cf. os nºs. 11 e 13 da encíclida «Laborem Exercens»). Eles são aproveitados pelos partidos marxistas, mesmo quando os protagonistas rejeitam esta orientação política, e até se situam à direita no leque partidário.
Um dos três dinamismos traduz-se no descontentamento e no desespero, que grassam em largos segmentos da sociedade. Com frequência, surgem aí desabafos e gritos de revolta a favor de mudanças radicais, inclusivamente pela via revolucionária. Estas posições descrêem da democracia tal como existe, e praticam a abstenção nos actos eleitorais com toda a naturalidade. A pobreza, as desigualdades e todas as injustiças alimentam-nas permanentemente.
Um outro dinamismo provém dos sindicatos e associações para-sindicais de grupos socioprofissionais de grande impacto no país, tais como os das magistraturas, das forças armadas, da educação, da saúde, da administração pública em geral… Eles têm contestado a generalidade dos governos, e parecem determinados a continuar assim. Embora não se apresentem como potencial «ditatura do proletariado»,deixam bem patente que, a seu modo, dispõem de poderes análogos aos do poder soberano.
O terceiro dinamismo polariza-se nos «grandes meios de comu-nicação social» que, na sua maioria, vão alinhando na contestação do poder democrático e dedicam àqueles grupos socioprofissionais uma parte significativa das suas notícias e comentários. Vivem mancomunados com as opiniões públicas dominantes, marcadas pela mesma contestação. Criou-se até, entre esses meios de comunicação e as opiniões públicas uma relação de cumplicidade permanente: se eles dizem «mata», elas dizem «esfola»…
Neste conjunto de marxismos abastardados, prevelece afinal o princípio do interesse próprio, tal como no liberalismo económico. Pergunta-se: a democracia, a justiça e a paz sobreviverão?
