A árvore de Zaqueu*
* «Porque era de baixa estatura, subiu a uma árvore para ver Jesus» (Lucas 19,3-4)
Se treparmos até ao cimo, todas as coisas da vida servem para ver melhor.
2.º DOMINGO DA QUARESMA – ANO C
No domingo passado, falou-se da tentativa salutar de nos libertarmos das situações opressivas, dos amigos falsos, dos vendedores manhosos… lembrados que «antes só que mal acompanhado»; e que era preciso ao «povo escolhido» atravessar um deserto, para vencer as ilusões do caminho da terra desejada; que era preciso a Jesus dominar as miragens de poder e de rica vida, para não vir a ser mais um fala-barato; que era preciso aos apóstolos sustentar as consequências duras de uma escolha, nascida entre muitos momentos de visão desfocada, para não merecerem a troça de toda a gente.
Mas não há projecto que se aguente, sem amigos reconfortantes. E amigos de carne e osso – porque Deus e os antepassados, por mais vivos que os sintamos em nós, não nos afagam com as palavras, com os gestos ou com o olhar.
Abraão, que sentia Deus como amigo, não suspirava ele por um filho que lhe acarinhasse a vida (Génesis 15,2-3)? Bastaria aos apóstolos um Jesus «cheio de glória», se não pudesse ficar ao pé deles (Evangelho)? Bastaria a S. Paulo o entusiasmo por Jesus Cristo, sem a esperança de viver junto dele como o maior amigo (Filipenses 3,10.21)?
Como seria a vida dos profetas e de Jesus, sem os amigos, sem os bons mestres e as «santas mulheres»? Não gostava Jesus de recompor as forças em casa de Maria, Marta e Lázaro?
As três leituras de hoje, cada uma a seu modo, trazem as cores das nossas esperanças e frustrações. Nada parece certo nem eterno. E se Deus é certo e eterno, é-o de um modo totalmente «estranho», parecendo tão longínquo e indiferente à nossa sorte que o próprio Jesus agoniou na cruz, como um filho abandonado.
E no entanto, não há dentro de nós, mesmo nos piores momentos de sofrimento físico e psicológico, uma constante esperança de que tudo se transfigure para definitivamente melhor? Como se um “estranho amigo” se aproximasse fisicamente, levado, quantas vezes, pelo braço doutro amigo…
Abraão teve uma vasta descendência – a quem muitos séculos de revezes fizeram sentir que a beleza da vida é uma semente divina que só cresce se bem cuidada.
E ninguém se deve furtar a este cuidado discreto de “fiel jardineiro”, atento a eliminar o que é corrosivo e a fortalecer o que está bem. Assim colaboramos na transfiguração do mundo.
Mas é o nosso esforço em cultivar amizades que facilita uma eficaz “gestão de energias”, o acerto nos modos de “transfiguração”, o discernimento do seu real valor e daquilo por que interessa mesmo lutar. Nas conversas amigas, tira-se proveito tanto do trivial como do mais sério – e assim tudo na vida pode receber um valor positivo. E por que não há-de entrar numa conversa trivial a descoberta de como em tudo se pode manifestar a perfeição divina? Ou falar do tal “estranho amigo”, que gosta tanto de se meter nas nossas amizades e de lhes fortalecer a confiança…
Com essa confiança é que S. Paulo nos convida ao esforço e determinação, como ele próprio tentou, por não perder o que se acha ser o maior bem a alcançar (Filipenses 3,12-13).
Para tanto, é preciso a fé de Abraão: apesar da longa idade e sem ter filhos, acreditou que havia de fazer muito “na boa companhia” de Deus.
Para Pedro, João e Tiago, tudo começou numa caminhada vulgar e com eles caidinhos de sono. Jesus gostava da simplicidade como a boa terra para construir o novo mundo. Meio desprendidos deste mundo, é que abriram os olhos para a tal estranha presença transfiguradora. Gostaram tanto do que viram, que o que lhes apeteceu foi ficarem a gozar (sem muito esforço…) da boa companhia!
No tempo de Abraão, era costume que as partes empenhadas num acordo ou aliança se submetessem ao ritual de atravessar entre as carnes esquartejadas dos animais sacrificados, com a imprecação: «assim seja eu esquartejado se for infiel à promessa!» Mas quem escreveu a história sabia tão bem da fragilidade humana, que disse que só Deus é que passou…
Para adormecer tranquilos e nos erguermos cheios de coragem, é preciso redescobrir a milenária (ou “milionária”, em toda a riqueza do termo) experiência de Deus, sempre fiel apesar das nossas aldrabices, sempre justo apesar das nossas injustiças e sempre presente nas carícias e saudades, com o sabor refrescante e garantido de quem não nos quer “esquartejados” pelos nossos trambolhões, mas sempre prontos a pôr de pé para gozar a alegria «em boa companhia»…
Manuel Alte da Veiga
