Mas por onde é que Deus anda?

A Árvore de Zaqueu Uma pergunta de todos os tempos e que até remata a 1.ª leitura. Em plena saga da libertação do povo de Israel por Moisés, Deus parece confundir mais do que ajudar.

Na história dos campos de concentração nazis, um rabino, enquanto enfileirava com os outros judeus em frente das câmaras da morte, exclamou: «Deus, isto é demasiado abominável para estar a acontecer! Tens que mostrar o teu poder e impedir esta hecatombe!». O tempo foi passando e nada sucedeu. Então, meneando tristemente a cabeça, o rabino suspirou: «Não, Deus não existe!»

Apetece dar razão ao rabino, pois os prisioneiros nada podiam fazer em abono do provérbio «Deus ajuda a quem se ajuda».

Por outro lado, temos um certo medo de levar a sério como cada ser humano é responsável por que se fortifique o elo duma contínua interajuda. Esta simbiose da humanidade é a concretização da presença divina em cada ser humano, e nela se baseia o juízo sobre a nossa acção neste mundo: «Vinde, benditos de meu Pai! Porque sofria… e me ajudastes!» (Mateus 25, 31-46).

Toda a história da Humanidade é um milagre, como diria Einstein; é um código do amor de Deus, mais de acordo com a segunda leitura. Deus toma a iniciativa, mas nada sucede se a gente não ajuda.

Não haveria a história linda da samaritana se esta não tivesse dado de beber a Jesus, apesar das rivalidades entre judeus e samaritanos, desprezados por aqueles (daí a importância da provocadora parábola do «bom samaritano», em S. Lucas 10, 29-37).

A conversa desenrola-se como cerejas: Jesus promete matar a sede, embora nada tenha com que tirar água do poço; Jesus teima com a samaritana e esta acaba por reconhecer que não estava a sonhar e que aquele homem, fora do baralho dos judeus, era mesmo o Messias. Vai ter com os conterrâneos, contando-lhes a maravilha da sua experiência, e Jesus permanece vários dias nessa terra, até que toda a gente diz: «Nós próprios ouvimos e sabemos que ele é realmente o salvador do mundo».

Primeira conclusão: os samaritanos não se convenceram devido a factos milagrosos, mas porque se dispuseram a ouvir o que Jesus queria dizer.

Outra conclusão: este evangelista gosta de jogar com as palavras, e não é fácil explicar os conceitos que ele usa (por exemplo, o poço de Jacob é bem real, mas o termo de «poço» é altamente simbólico, evocando vida e sabedoria). Note-se que o quarto evangelho, escrito bastante depois dos outros, nos finais do séc. I, reflecte as novas correntes de pensamento e espiritualidade, decorrentes do encontro das culturas greco-romanas e orientais.

A samaritana não atingiu o sentido das palavras de Jesus, o que desencadeia um oportuníssimo aprofundamento da novidade que Jesus trazia ao mundo. Mas nem os discípulos compreenderam a cena da samaritana e muito menos as palavras sobre o «alimento» de Jesus, a misteriosa intimidade com Deus, fonte da sua energia para propagar a boa nova.

Aliás, a incompreensão, por parte das gentes e dos discípulos, marca diversas vezes o evangelho de João. Por isso é tão importante a explicação de Jesus sobre o verdadeiro culto a Deus. Não nos podemos prender a espaços e pessoas como possuindo uma espécie de força mágica. Tal atitude agrava a nossa incompreensão de Deus. Só podemos experimentar a presença de Deus se exercitarmos a liberdade espiritual, pois só ela pode procurar e encontrar Deus em tudo. O Deus que semeia connosco, o Deus que faz a colheita connosco, o Deus para quem todos nós merecemos o mesmo salário, sejamos meninos, no vigor da vida ou velhos. A todas as horas, em todas as idades, a conversa com o Deus revelado por Jesus faz brotar a água da vida.

Manuel Alte da Veiga