Olhos na Rua Como parte da minha vocação, toca-me agora descobrir parte da vida de um monge contemplativo, que a vida cristã comporta. Nem frade cartuxo, nem monge de Cister de rigorosa observância. Apenas um cristão que se vai habituando a viver recolhido entre os seus livros, com reduzidos contatos pessoais, disponível para ser útil aos que se lembram que ainda existo e posso prestar algum serviço, nem que seja uma simples substituição numa celebração dominical. É um tempo curioso de descoberta, que não me tem tornado nem azedo, nem de difícil relação. Que é a vida senão a aprendizagem de perder para ganhar, de aprender sempre a ser útil, quando se sente que, para Deus e para os irmãos, ninguém é inútil? Há perdas mais custosas. Dos amigos, restam, normalmente, os mais antigos. Amigos da pessoa, que não do personagem, sabem descobrir e estar presentes, gratuitamente, no momento próprio.
Estamos sempre e todos em processo de aprendizagem. Sinto-me mais sereno e com horizontes mais largos na contemplação da Igreja grande e das pequenas igrejas, com nome e rosto. Até de outras Igrejas. Mais contemplativo da sociedade. Vejo com olhos de alegria e gratidão, as coisas boas e os projetos de vida, vejo com dor, as pessoas não respeitadas, nem amadas, o dispersar de forças, a altivez de quem tudo sabe. Evolui assim a vida de um crente: meio monge, mesmo sem hábito. Deus tem os seus caminhos que se vão revelando. Agora é preciso caminhar com serenidade, tirando da vida a experiência rica das privações, sejam elas livres ou impostas. Muitas vivências vão morrer comigo. Até no partilhar, nem tudo se escreve num diário ou no jornal. A vida não é um desabafo, mas um mistério que convida a acolher novas descobertas.
