Menos retórica e mais ajudas concretas

A denúncia surge no final do Fórum de Accra, no Gana (04-09-2008), em que muito se falou de ajuda aos países mais pobres, mas pouco se concretizou em relação a situações de pobreza, cujo horizonte é a morte inevitável e próxima.

A pobreza que roça a miséria mais degradante não é uma fatalidade, mesmo que assim o queiram fazer entender os grandes teóricos do mundo da economia e da sociologia. Por vezes os políticos acomodam-se a estas opiniões que acabam por sossegar a consciências ante as muitas omissões e os desvios para formas mais vistosas de fazer investimento dos dinheiros públicos. Quando se começou a usar e a abusar da expressão “sem vez e sem voz” não se pensava talvez que muita gente, de facto, se enquadra, de modo pleno, na verdade destas palavras.

Porém, cada vez se fazem estudos mais qualificados e sérios sobre a pobreza no mundo, que raramente saem da retórica dos grandes congressos e fóruns, não faltando dinheiro para os realizar e para publicar livros e actas que mostram a importância de muitos eventos inconsequentes.

O senhor Ban Ki-Moon, Secretário-Geral da ONU, convidou o Cardeal de Nicarágua, Óscar Maradiaga, para ajudar a definir os objectivos do desenvolvimento neste III Milénio, dada a mancha da pobreza extrema, da Africa e da América Latina. Há consciência de que alguns países de Africa, mesmo com bons planos de apoio, necessitarão bem de um século para entrar num certa normalidade.

Um terço das crianças com idade abaixo dos cinco anos, que vivem em países em vias de desenvolvimento, está gravemente atingido pela fome. E outros dados começam a saltar: A Igreja nestes países tem mais de 60 mil orfanatos com 6 milhões de crianças, 90 mil escolas básicas com 28 milhões de alunos. São números de hoje, veiculados por agências internacionais fiáveis, embora tudo pareça uma ficção. A conclusão dos responsáveis é de que, com ajudas regulares, se poderia fazer muito pela vida dos já pré condenados à morte e pela sua educação e promoção em condições de normalidade. Mas é mais fácil fazer cadeia de ajudas por ocasião de tragédias naturais, úteis é claro, como se a fome permanente e as janelas fechadas à esperança de vida com um mínimo de dignidade não fossem também verdadeiras tragédias.

A indiferença sempre fria, tal como a solidariedade efectiva, pode ser contagiosa. Os tempos que correm vão mais de molde ao contágio da indiferença que alastra, e menos ao impulso para a solidariedade, que tende a restringir-se a grupos restritos e motivados, mas que apesar disso conseguem realizar resultados que vão além do pensável e ser um aguilhão incómodo nesta nossa sociedade, embriagada por um consumismo atraente e largamente publicitado.

Diziam-me há dias que Portugal era, na Europa, o país com as maiores manchas de pobreza concreta. Não vi dados comprovativos nem comparativos, por isso não afirmei nem neguei. Sei apenas que abundam expressões e situações de pobreza escancarada e envergonhada, com tendência a aumentarem. Também sei que, por vezes, nos diversos sectores de vida – políticos, religiosos, empresariais, culturais – há mais retórica que acções concretas.

Os pobres, incapazes de saírem, por si, das valas profundas para onde foram empurrados, são um grito permanente pela justiça, partilha efectiva de bens, reconhecimento e defesa de direitos humanos não promovidos, nem respeitados. Um grito que tem de nos acordar e incomodar.

Muitas situações podem resolver-se se todos quisermos. Quando o conseguirmos, temos mais autoridade para exigir a quem pode que resolva o que nos ultrapassa.