Livro da professora Maria Cacilda relata episódios da sua dedicação ao ensino, uns engraçados, outros para pensar, quase todos para que percebamos que só “se é feliz na medida em que nos damos aos outros”
Depois de “Retalhos da minha infância” (2006) e de “E sempre o amor” (2007), a professora Maria Cacilda Marado publica “Meus alunos, meus amores”, um conjunto de episódios vividos pela autora e pelos seus alunos, retirados de 40 anos de docência da autora, no ensino público e privado, em todos os graus de ensino.
A obra foi apresentada no sábado, 25 de Outubro, em São Bernardo. Amigos, antigos alunos, antigos colegas professores e familiares encheram o salão paroquial e compraram, logo no lançamento, mais de uma centena de exemplares do livro. Os direitos de autor revertem para a Fundação Padre Félix, instituição de carácter social actualmente presidida pela autora.
“Os meus alunos têm sempre o primeiro lugar”, afirmou a professora, emocionada, nas breves palavras que dirigiu aos presentes. Feito de “retalhos” e “marcos de real”, “o livro precisa que os leitores lhe dêem vida, que façam renascer as pedras, a escultura que o autor deixou”, afirmou Maria Cacilda. “Está cheio de espaços em branco. Precisa que os leitores os preencham”, acrescentou.
Na sessão, Manuel Ferreira Rodrigues, investigador e antigo vereador da cultura de Aveiro, apresentando a obra e a autora, considerou que é mais importante investir no ensino básico, que tem “menos funcionários, menos equipamento, menos edifícios”, do que no superior, e foi cáustico para o panorama actual da educação e da sociedade. Criticou, nomeadamente, a dissolução da família e a sua falha da educação básica, a “diluição do poder do pai”, a “televisão terrorista” que temos.
P.e Luís Barbosa, pároco de S. Bernardo nas primeiras palavras da sessão (abrilhantada pela música de um grupo de professores da Escola Secundária da Gafanha da Nazaré), manifestou contentamento pelo lançamento do livro e destacou a dedicação da autora a “situações de carência e pobreza”, na paróquia. No final, sabendo que Maria Cacilda Marado está a escrever mais uma obra, desta feita um romance, alertou, numa alusão ao recente roubo do portátil de uma figura pública: “Não deixe que lhe roubem o computador!”
J.P.F.
“Avancemos”
Durante a apresentação foram lidos dois (pequenos) capítulos da obra. De um deles (pág. 81-82) publica-se este excerto. A autora, que foi professora de História no Seminário de Aveiro, diz apenas que se passa “num seminário diocesano”.
“Um belo dia, em que eu estava entusiasmadíssima a falar da primeira guerra mundial, dei conta que alguns dos meus meninos estavam trocando risinhos e cochichos entre si. Empolgada como eu estava, deixei sair o «avancemos» costumado. Imediatamente, os quinze ou dezasseis jovens, que se distribuíam em três filas frente a mim, levantam-se, pegam na carteira e, muito sérios, dão um passo em frente, batendo com os sapatos em uníssono no chão. Fiquei «podre», usando a gíria estudantil, mas não me dei por achada. Olhei de frente para eles, mirei-os de cima a baixo e de ponta a ponta e repliquei:
– Recuemos!
Ninguém abriu o bico, não ouve risos nem hesitações. Num ápice, pegaram novamente nas carteiras, recuaram e sentaram-se nos seus lugares. A aula prosseguiu novamente, e ainda hoje considero esta ocorrência como uma das mais pitorescas da minha profissão”.
