Micro-climas

A situação estrutural de insegurança é a própria ciência económica que nos diz que “gera comportamentos antiprodutivos e de desperdício de recursos humanos, já que o trabalhador tende a adaptar-se passivamente aos mecanismos automáticos, em vez de dar largas à criatividade” – diz Bento XVI, na sua carta “Caritas in Veritate” (32).

A flexibilidade das leis laborais e a fácil deslocalização de empresas são dois elementos desta estrutural situação de insegurança. A busca de soluções não poderá, portanto, ignorar a necessidade de “uma convergência entre ciência económica e ponderação moral”.

Outra condicionante a um progresso que seja desenvolvimento integral e sustentável é, no dizer do Papa, “o nivelamento das culturas à dimensão tecnológica”. Isso impõe a tendência para projectar a economia não a curto, mas a curtíssimo prazo, sacrificando a tutela dos direitos dos trabalhadores ou a renúncia a mecanismos de redistribuição dos rendimentos, em favor de uma maior competitividade internacional.

É evidente o custo humano desta visão redutora, tecnicista, da economia. Por isso, Bento XVI é peremptório: “Isto requer uma nova e profunda reflexão sobre o sentido da economia e dos seus fins, bem como uma revisão profunda e clarividente do modelo de desenvolvimento, para se corrigirem as suas disfunções e desvios. Na realidade, exige-o o estado de saúde ecológica da Terra; pede-o, sobretudo, a crise cultural e moral do ser humano, cujos sintomas são evidentes por toda a parte”.

Nada como os planos de desenvolvimento local, geradores de “micro-climas sociais”, perfeitamente integradores de pessoas humanizadas, que permanecerão células vivas de um tecido social mais vasto, mesmo à escala planetária, para um concerto personificado e culturalmente enriquecedor da globalização.

A Doutrina Social da Igreja não gera modelos sociais e económicos. Mas dá critérios que preservem esses modelos das disfunções e desvios de que fala o Papa. Só desse modo nos poderemos subtrair aos “donos anónimos” do Mundo e impedir que adormeçamos portugueses, espanhóis, italianos…, e acordemos chineses ou japoneses, americanos ou russos!