Poço de Jacob – 137 Estamos no Ano da Fé, em plena Missão Jubilar. Celebramos os 50 anos do Concílio Vaticano II. A Igreja católica não está tão enfraquecida assim, como dizem os “velhos do Restelo”. Vemos surgir novas congregações com numerosas vocações. Em países como França, a fé afirma-se com maior autenticidade e vemos gente séria e comprometida… A Polónia conserva os seus seminários ainda com muitos jovens na promessa de virem a ser sacerdotes.

Há crise, sem dúvida, mas o êxito da Missão Jubilar na nossa diocese mostra que há gente empenhada e no campo a lutar. A Praça de S. Pedro enche-se cada dia e, há anos, os lugares esgotam para as audiências do Papa. Há gente dando a vida nos lugares de missão tradicional como África, Ásia e América… A América Latina continua a ser onde se bate o recorde.

Claro que há muita superstição e tradições que deveriam já ter desaparecido do nosso meio, mas o olhar para o futuro é de esperança. Mas não podemos cruzar os braços. O nosso povo católico vive na ignorância da Bíblia. A sua formação cristã é quase nula. As catequeses educam para algumas atitudes mais éticas do que religiosas. E o chamado Catecismo da Igreja Católica, cujo aniversário celebramos também, não está em todas as casas, nem é lido e meditado o suficiente para que possamos dizer que o número de católicos inscritos na Igreja, pelo Batismo, corresponde igualmente à qualidade. Alguém disse que temos igrejas cheias de pessoas, mas vazias de cristãos. De doutrina… nada, e a repercussão nas atitudes é o que se vê. E o que vemos por vezes faz-nos desanimar, quando nos fixamos só no nosso ambiente.

Ocorreu-me lembrar aqui a atitude de um padre de um lugar bem católico da geografia da nossa Igreja que, diante de sua comunidade, ofereceu mil euros a quem dissesse os Dez Mandamentos de cor e salteado. Era domingo. Estavam lá catequistas, ministros da pastoral paroquial… Acreditamos que alguns não terão respondido por acanhamento, a verdade é que ninguém respondeu. E estavam habituados a intervir quando o pároco fazia perguntas. Eu há dias perguntei à minha comunidade, tendo acabado de ler o Evangelho em que se fala do cego Bartimeu, qual era o nome do cego do Evangelho e só uma criança respondeu. Enfim! Alguns, quando saem da Igreja, podem dizer aos que não foram que o padre falou muito bem. Mas ao serem interpelados sobre o tema respondem: “Olhe, o que ele disse eu não sei, mas que foi bonito, lá isso foi!”

Aqui, sim, temos motivos para nos preocuparmos. O nosso povo já não sabe os Mandamentos. Todos os aspetos da doutrina que dantes se decoravam sem serem entendidos hoje simplesmente são ignorados, com tantos meios para se saber e orientar a vida. Esquecemos o mais básico cristão como nos esquecemos da tabuada ou das regras de gramática ou dos itens da história e as fórmulas químicas que formaram génios. O imediato da imagem e do ter proveito e resultados sem espera nem conquista também chegou à Igreja. Olhamos com esperança para o futuro, mas tememos que, no amanhã, no hoje e mesmo no já agora, o nosso povo não possa atender ao apelo de S. Pedro: “Devemos estar sempre prontos a dar razões da nossa esperança”. Ótima ocasião para, à luz do Concílio, estudarmos com afinco o Catecismo da Igreja Católica.

Vitor Espadilha