As situações extremas da vida conduzem a pessoa humana ao limite do seu conhecimento, à fronteira das suas decisões, à urgência de atitudes surpreendentes. Sem sombra de dúvida que a eminência da morte é o limite dos limites.
O País acompanhou, na sua maior parte emocionado – como o mundo há uns tempos atrás, em relação aos mineiros do Chile – o drama, quase tragédia, de meia dúzia de homens cativos do mar revolto, entregues à sua coragem e determinação e dependentes da ajuda de Deus.
Alguns hão-de sorrir, face à vertente de religiosidade que envolveu estes dias de angústia e esperança. Os protagonistas do acontecimento manifestam, sem dúvidas nem respeitos humanos, a sua convicção da protecção do Alto.
Garantem que fizeram tudo o que estava ao seu alcance, incluindo a dolorosa decisão de ter o mestre de ser firme com um dos tripulantes, a consciência da necessidade de poupar os escassos meios de sobrevivência que tinham à mão, as tentativas de se fazerem ver por alguém que lhes passava ao largo…
Mas, em toda esta aflitiva situação, acresceram ao seu discernimento a oração contínua, a oração dos simples, consolidando a sua coragem e esperança na certeza de uma Mãe que protege. E são eles que o dizem: sentiram que o feliz desfecho final desta situação limite teve também a presença reconfortante e actuante d’Aquela a Quem invocaram com fé, com incondicional confiança.
Calculistas como somos, desdenhamos da presença do sobrenatural no subterrâneo da história dos homens. Avessos a aceitar alterações extraordinárias das leis da natureza, não queremos tampouco aceitar que o milagre brota da actuação divina no cerne dos acontecimentos, no íntimo da vida das pessoas. Mas Deus, atento à história, não deixa de corresponder, às vezes de forma surpreendente e excepcional, à total confiança nEle depositada ou que desses acontecimentos possa brotar. O milagre não é, necessariamente, a alteração das leis da natureza; mas é sempre a sua superação.
A fé é a certeza das coisas que se não vêem. Caminhamos, neste mundo, conduzidos pelo nosso conhecimento e decisões, enquadrando as nossas emoções. Mas nós, cristãos, sabemos que fica muito universo para além das estrelas, que fica muito mundo para além do que abrange o nosso conhecimento e mesmo a nossa intuição. Mas a certeza de que o Espírito de Deus fecunda os nossos esforços e amplia a realidade muito para além do que apreendemos infunde outra coragem e esperança no nosso caminhar. Não nos minimiza, não nos aliena!… Dá-nos asas para voar até à eternidade!
