Mineiros do Chile, exemplo a seguir

Questões Sociais Os mineiros soterrados no Chile são um exemplo eloquente das atitudes recomendáveis numa situação de crise, como aquela em que nos encontramos: não cederam a impulsos primários; partilharam os bens; e empenharam-se na libertação.

Não cederam a impulsos primários de desespero, revolta, luta egoísta pela sobrevivência; assumiram a realidade, como ela se apresentou, e organizaram-se para lhe fazerem face. Com base nesse estado de espírito e nessa organização, passaram a fazer a partilha de bens, que eram escassíssimos: partilharam produtos alimentares, espaços exíguos, a própria esperança e outros bens. Ao mesmo tempo, empenharam-se na procura de libertação, de regresso à superfície.

Em todo o processo, beneficiaram de uma rede extraordinária de solidariedade e de comunicação, em que se envolveram suas famílias e inúmeras outras entidades. Os mineiros e a corrente de solidariedade, que se espalhou por toda a parte, afirmaram, pela acção, que a austeridade não equivale a empobrecimento ou renúncia à vida; implica sobriedade sem dúvida, que foi extrema neste caso, mas também implica a superação gradual de contingências funestas, em partilha e solidariedade permanentes.

Ao contrário destes procedimentos exemplares, as posições dominantes face à crise actual, em Portugal e noutros países, parecem concentrar-se em impulsos primários: são notórios os impulsos de desespero, revolta, luta egoísta pela sobrevivência; em contrapartida, ainda não se difundiram movimentos fortes de partilha e solidariedade, nem surgiram programas consistentes de superação das contingências em que nos encontramos. Alguns países dão mostras de estar a encontrar linhas de rumo adequadas. Porém, no caso português, isso ainda está muito longe de acontecer, apesar das negociações em curso (24 de Outubro) entre representantes do Governo e do PSD. Por tal motivo, custa mais sairmos da mina onde estamos soterrados; em vez disso, persistimos no risco de nos afundamos cada vez mais. Não falta quem alerte para o imperativo de soluções de fundo; mas falta quem saiba não confundir soluções de fundo com o afundamento das soluções possíveis, baseadas no diálogo, nos entendimentos possíveis e na gradualidade.