À Luz da Palavra – X Tempo Comum – Ano A A liturgia deste domingo encontra-se repassada da ideia de “misericórdia”. A misericórdia é um dos maiores atributos do nosso Deus: “Eu quero a misericórdia e não os sacrifícios, o conhecimento de Deus, mais que os holocaustos”. Isto significa que, para o nosso Deus, conta mais uma adesão interior do coração ao seu chamamento e à sua proposta de salvação, do que os actos exteriores de culto ou os muitos sacrifícios que lhe possamos oferecer.
Na primeira leitura, o profeta Oseias denuncia a falta de sinceridade da sua comunidade, cujo amor a Deus era superficial, “como o orvalho da madrugada que se evapora”. Os seus actos de culto não significavam nada para Deus, porque não se traduziam em abertura de coração à aliança com Ele e em verdadeiro amor ao próximo. Como vivo eu a minha relação a Deus? Repetindo rotineiramente orações e gestos, ou aderindo interiormente à vontade de Deus e concretizando esta adesão em obras a favor dos irmãos e irmãs, com gestos de ternura e de misericórdia que os levem a visualizar o amor de Deus espelhado no meu coração?
O evangelho relata-nos o escândalo dos fariseus face a Jesus, porque Ele come com os pecadores e os publicanos, em casa de Mateus. O texto apresenta-nos este antagonismo de concepções relativamente ao mesmo Deus, por parte de Jesus e por parte dos seus adversários. Jesus insiste em que é preciso conhecer Deus e recorda-lhes também a sua missão: “Não são os que têm saúde que precisam de médico, mas sim os doentes”. Porque Jesus veio chamar os que são e se reconhecem pecadores e não os que se auto-designam justos. Os fariseus ficam muito incomodados face à atitude misericordiosa de Jesus para com os pecadores, porque se consideram judeus de primeira. E eu, também faço clivagens relativamente às pessoas que Deus chama e que lhe respondem fielmente? Considero-me cristão de primeira? Desprezo os outros a quem Deus também chama, sem fazer acepção, independentemente da sua situação anterior de pecado?
Na segunda leitura, Paulo apresenta aos cristãos o projecto de Deus. Diante da miséria dos homens e das mulheres que Ele criou com tanto amor, decide refazer a sua criação, chamando um homem e uma mulher sem vigor e com fraca vitalidade, Abraão e Sara, para darem início a um novo povo. E este casal acreditou na misericórdia de Deus, o que os fortaleceu na fé. É a misericórdia de Deus que actua, sempre que é necessário consertar o mal, mudando-o em graça e perdão. Como reajo ao bem que vai surgindo nas pessoas e nas instituições, sobretudo quando ele sai de quem considero inferior a mim? Alegro-me ou escandalizo-me como se isso fosse uma ameaça para mim? Quanto farisaísmo há dentro de cada um de nós! E como é urgente conhecermos o nosso Deus e nos deixarmos impregnar pela sua misericórdia!
X Domingo do Tempo Comum: Os 6,3-6; Sl 49 (50); Rm 4,18-25; Mt 9,9-13
Deolinda Serralheiro
